segunda-feira, 27 de julho de 2009

O que o Jack Bauer faria?

Nunca dei muita bola para os enlatados americanos. Os únicos seriados que realmente acompanhei foram "Lost" e "Arquivo X". Depois deles, nada mais me encheu os olhos. Bom, até o dia em que dei mole e parei para ver o primeiro episódio da temporada de estreia de "24 Horas".

Desde então, Jack Bauer virou um camarada de madrugadas insones.

- Só mais um episódio...

E quando eu percebia, o relógio já marcava 4 da manhã. Eu, Jack Bauer, Tony Almeida, Nina Meyers e a horda de terroristas que ameaçam a american way of life.

O agente da CTU que resgatou a carreira do Kiefer Sutherland foi a melhor representação do herói estadunidense pós-11 de Setembro. O cara é um líder carismático, persistente, obstinado e sem a menor consideração pelo Protocolo de Kyoto. Ao mesmo tempo, suas medidas brutais trazem consequências igualmente devastadoras.

Este é ponto fascinante da mitologia de "24 Horas": ninguém está seguro. Para cada vitória, há uma ou duas penalidades, que custam dezenas (ou centenas) de mortos. Muitas vezes, a lista de falecidos e mutilados envolve sua família, seus amigos, seus entes queridos, seus aliados, seus parceiros de trabalho, suas namoradas e quem mais estiver por perto. Para piorar, às vezes, ele é o assassino ou torturador das pessoas queridas. O sujeito é um ogro!

Quando parei para pensar em como me viciei pelo seriado, fiquei com um tiquinho de medo – de mim mesmo. Quando eu era adolescente, eu devorava os gibis do Homem-Aranha, o CDF que salvava o dia, mas não conseguia conquistar a Mary Jane, e tinha que se virar para pagar o aluguel. Eu me identificava com ele. Acho que Peter Parker ajudou muito na construção da minha personalidade.

Anos depois, o herói de uma geração é o maluco agente do governo. Jack não tem a nobreza dos heróis que vestem collants coloridos. Ele não é o bom filho nem o bom pai que acredita que "grandes poderes trazem grandes responsabilidades". O seu mote é o "custe o que custar".

O mundo de hoje anda muito estranho.

No fundo, acho que fomos crianças nascidas no olho do furacão e somos adultos muito paranóicos. Sim, eu e você. Não se faça de desentendido. Nossa geração perdeu a inocência de acreditar nas invenções do McGuyver, nas presepadas do Magnum, nas aventuras do Esquadrão Classe A, na fé de Mulder e Scully e até na beleza das Panteras. Farrah Fawcett morreu e levou consigo a sensação de imortalidade dos heróis da telinha.

Digníssimo leitor, se você acha que o Magnum é um picolé de chocolate, vou me sentir uma peça de museu.

Hoje em dia, a banda toca de outra maneira. A gente gosta é de ver o Jack Bauer esculachando os terroristas árabes, o Dexter barbarizando outros assassinos, Capitão Nascimento botando vagabundo no saco e o mundo cão de "Law & Order: SVU".

Ursinho Pooh é o cacete! Capitão Planeta é o escambau! Dadinho é o c@#$%! Meu nome é Zé Pequeno, p$%&!

Isso não te dá um certo medo também? Como escreveu o compositor caipira, "abre porteira, que eu quero entrar. Cidade grande, me faz chorar".

Ah, a vantagem de ser fã de "24 Horas" é um certo alívio em saber que há alguém com um cotidiano mais estressante que o meu.



QUAL A MORAL DA HISTÓRIA,
HE-MAN?
Amiguinho, você anda meio esquisitão. Deixa o Jack Bauer, o primo nervoso do Jairo Bauer, em paz. Vou te reconfortar. Os heróis citados foram criados na redoma do politicamente correto. Era um mundinho de faz de conta em que ninguém sangrava ou sofria. O século XXI não atura mais essas hipocrisias. É impossível esconder as nossas mazelas A arte passou a imitar a vida e mostrar que a vida não é esse algodão-doce todo. A dor da descoberta é assim mesmo. Fica relax e vai ver a quinta temporada de "24 Horas". Amiguinho, saiba lidar com os seus próprios limites. Até a próxima!!!


PS: Magnum, o detetive número 1 do Havaí, foi o personagem que lançou o bigodudo Tom Selleck. Você não sabe quem é Tom Selleck? Danou-se!

PPS: Ok, ok... eis o detetive Thomas Sullivan, vulgo Magnum, em sua primeira temporada.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A sombra de todos os medos


Assim como o amor sincero, a traição está entranhada na alma do ser humano. Eurípides sabia disso. Shakespeare sabia disso. Nelson Rodrigues sabia disso. Woody Allen sabe disso. Você e eu sabemos disso. Certas pessoas têm mais medo da traição do que da morte.

O assunto veio como tempero de um almoço, em um dia frio do inverno carioca. Chegou depois do prato principal e pouco antes da sobremesa.

- Todo mundo trai, cedo ou tarde. O lance é como você lida com isso – Péricles levantou a questão. Cassandra, minha estagiária com histórias cada vez mais raras, arregalou seus olhos.

Eu não movi um músculo da face. Já ouvi esse tipo de conversa umas 17 mil vezes. Mas lembrei de várias outras frases de efeito relacionadas ao tema. Já que ela despertou minha memória, vamos começar pela própria. Dispa-se de seus preconceitos e pré-julgamentos e vem comigo. Vamos unir nossos achismos e passear por este campo minado:

- Todo mundo trai, cedo ou tarde. O lance é como você lida com isso.

Tem uma parte que é verdade e outra que não é. Não sei se todos estão fadados a trair (ou ser traídos), pois isso ainda não saiu no Discovery Channel ou foi foco de estudo de algum aspirante ao Prêmio Nobel. Mas é real que a tentação vai bater às nossas portas em alguma hora da vida. E aí? Você vai ceder? Se a Angelina Jolie sussurrar no seu ouvidinho: "vem", você vai segurar a onda? Da mesma forma, você perdoaria a sua cara metade, se ela estivesse diante da mesma situação?

- Por mais que eu ame, acho impossível manter a fidelidade.

Conheço gente pra cacete, mas conto nos dedos do Pato Donald (ou do Presidente Lula), as pessoas que nunca deram um derrapada em seus relacionamentos. A maioria já deu uma ciscadinha fora do seu terreiro. O que os infiéis me juram de pés juntos é que foi algo carnal, fisiológico, instintivo. O amor continua dedica à namorada, esposa, agregada ou semelhante.

- Trair várias vezes com a pessoa diferente é perdoável. Trair várias vezes com a mesma pessoa é o fim de tudo.

Na minha terra, isso se chama bigamia. O cara que disse essa frase tem a teoria de que pular a cerca com pessoas diferentes é uma válvula de escape. Só que acertar o mesmo alvo mais de uma vez (duas, que seja) é estabelecer vínculo empregatício. Aí, danou-se.

- Masturbação pensando em outra pessoa vale tanto quanto trair. O que vale é a intenção.

Peraí, por que raios o cara pensaria em você, se ele já te tem? Masturbação é um exercício de imaginação, de criatividade. É realidade virtual em sua essência. E, cá entre nós, se cada pensamento erótico me condenar, estou ferrado. É inviável ficar indiferente a certos estímulos. E se houver peso, as mulheres estão em apuros. O homem se diverte imaginando um par de peitos e uma bela bunda. A mulher fantasia toda uma cena, um contexto.

- Flertar não é traição. É manter o ritmo de jogo.

Olha, eu concordo com esta afirmação de mesa de bar. Mesmo namorando, já flertei. Mais do que manter o ritmo de jogo, esse treinamento mantem o instinto de caçador, treina o sex-appeal. Sejamos sinceros.

- Não tenho medo de relacionamentos à distância. Você pode tomar um par de chifres da sua própria vizinha.

Quando bem administrados, namoros em DDDs diferentes podem ir muito bem, obrigado. Para quem tem uma mente evoluída e espírito superior, o único baque é nas despesas de viagens. Bom, eu não jogo neste time. Sou partidário da proximidade e já perdi excelentes oportunidades por isso. Nem rola medo da traição, pois a frase do meu caro amigo é plenamente real. O que mata é a saudade. Com isso, eu não sei lidar.

Ah, a traição. Sempre será a coadjuvante sombria dos sonhos cor de rosa. No fundo, o medo da traição é a contrapartida ao desejo pelo mais puro amor. É como desejar um carro bacana, mas temer pelo assalto.

E você? Quais são as suas percepções sobre o assunto? Puxa a cadeira e abra o seu coração. Vou ali pegar uma cerveja gelada e já volto.

QUAL A MORAL DA HISTÓRIA,
HE-MAN?
Amiguinho, quem lhe deu o direito de finalizar com uma moral da história? Que pretensão a sua. Vou te mostrar como se faz. Saca só: já que você começou citando a mitologia, vamos encerrar com um questionamento da mesma fonte. Quem você prefere ser: Medéia, que pune a traição de Jasão assassinando seus filhos, ou Argos, o cão abandonado, que só morre ao ver novamente Ulisses, seu dono desaparecido há 20 anos? Em Etérnia, na Grécia, em Heliópolis ou em Alphaville, a sensação que um bom par de chifres desperta é a mesma: abandono, que gera sentimentos confusos. Vai da raiva à autocondenação em um estalar de dedos. Amiguinho, agradeça sempre pelas suas conquistas. Pode ser aos outros coleguinhas ou até mesmo ao Papai do Céu. Não custa nada. Até a próxima!!!

sábado, 11 de julho de 2009

A noite em que beijei o meu primeiro amor

O dia em que beijei o meu primeiro amor foi esquisito. Aliás, o beijo foi esquisito. O dia foi legal. Foi estranho, porque não houve qualquer romantismo ou magia. Juro que não ouvi as trombetas dos anjos ou borboletas no estômago. Só lembro do frio da serra e do gosto de cigarro. Ficamos grandinhos e a nossa inocência foi para o beleléu.

Conheci Leocádia aos 10 anos e foi quase amor à primeira vista. Ela tinha 13 anos, morava na mesma rua e estudava no mesmo colégio. Para aumentar o fascínio, ela me fazia companhia nas manhãs glaciais de Petrópolis. Quando não íamos de ônibus, nossos pais revezavam a carona. Um dia minha mãe levava. No dia seguinte, o pai dela assumia a função. O engraçado era que ela quase sempre atrasava. Mamãe resmungava, mas eu adorava vê-la chegando esbaforida. A cada perda de horário, eu me apaixonava mais.

Não acredito em amor à primeira vista. Nunca acreditei. Fazer o quê?

Na volta para casa, parávamos no Bob's para tomar um milk shake de ovomaltine. Às vezes, eu deixava de lanchar no recreio para ter dinheiro e tomar aquele milk shake com ela. Com o tempo, eu a amava mais do que podia conceber. E olha que aos 10 anos, a imaginação pode fantasiar amores colossais.

Cometi o erro de virar um coleguinha. Leocádia e eu viramos bons amigos: eu, o pirralho, e ela, a musa da minha rua. Jogávamos War, Jogo da Vida, baralho e vôlei. Até tentei tocar violão para fazer dueto com a menina. O tempo passou e chegou o inevitável segundo grau. As tardes de jogos foram diminuindo até cessarem de vez. O mesmo aconteceu com as caronas. Crescemos e nos afastamos. Natural.

Anos depois, eu a reencontrei na mesma rua da nossa infância. Leocádia era uma dentista recém-formada e eu ainda estava cursando a faculdade de publicidade.

Leocádia estava deslumbrante, mas não era mais a garotinha de outros tempos. Saímos em grupo e a inocência se dissipou na fumaça azulada do Free Light.

- Quer um cigarro?

- Obrigado. Eu não fumo.

- Te incomoda?

- Só em ambientes fechados.

Estávamos sob a noite estrelada de Itaipava. Fazia frio e ventava muito, enquanto relembrávamos a nossa infância, as partidas de War que nunca acabaram, a turma que cresceu e outras recordações que brotam nesses reencontros. Leocádia ainda tinha os olhos lindos de outros tempos.

Pensei em revelar que ela foi o meu primeiro amor, mas segurei a verdade. Decidi contar apenas no momento certo. Justamente para dar mais dramaticidade à revelação. Coisa de garoto, sabe?

- Você se tornou uma mulher linda, sabia?

- Obrigada.

- Vou agarrar você.

- Espera eu terminar o cigarro, tá?

Esperei. Ela sorriu e finalmente rolou o beijo que sonhei tanto aos 10 anos de idade. O beijo que ensaiei na costa da mão. O beijo que deveria me encher de borboletas no estômago.

Peraí, cadê as borboletas? Nada. Nem uma mísera borboletinha safada.

Não revelei o tal primeiro amor. Nunca houve a cena de filme ou o momento dramático para valorizar a declaração. A verdade ficou guardada em algum caderno da escola, entre as lições de gramática e as redações. Tal verdade não combinaria com as aulas de matemática.

QUAL A MORAL DA HISTÓRIA,
HE-MAN?
Amiguinho, que revelação bonita. Aliás, você anda nostálgico. Está com a síndrome de Peter Pan aflorada, não? ´Bom, o caso do beijo e a mudança da Leocádia, você teve uma revelação importante sobre a imagem real e a imagem projetada. Muitas vezes, nossa percepção do verídico fica deturpada por algum sentimo: carinho, raiva, rancor etc. Quando a realidade ganha cores vivas, pode acontecer o que você sentiu na pele. E vamos parando com essa presepada de borboletas no estômago. Amiguinho, saiba dizer não quando necessário. Nem sempre, você poderá agradar à todos. Até a próxima!!!

terça-feira, 7 de julho de 2009

A aldeia global do Papai Smurf #13

Enquanto o Surfista passa por um intenso writer's block, o camaradinha Papai Smurf assume o espaço. Aproveitando o clima de inverno, ideal para um bom DVDzinho, as dicas do dia são três filmes já disponíveis em home video: um musical recente, um suspense dos anos 90 e um clássico dos filmes de detetives dirigido por um diretorzaço. Saca só:

NA TELINHA: A história é mais uma entre tantas outras farinhas do mesmo saco: garoto sai de casa para encontrar o verdadeiro pai e se apaixona por menina loirinha. Percebeu quanta originalidade? O que diferencia este mela-cueca de tantos outros é um certo quarteto de Liverpool. "Across the Universe" narra a história romântica do britânico Jude e da ianque Lucy ao som de uma penca de canções dos Beatles. Muitos clássicos e alguns "lados-Bs" ganharam releituras muito interessantes, cantadas por um elenco praticamente anônimo. A fotografia, os clipes e o clima do final dos anos 60 (hippies, Vietnã, subversão, drogas e outros elementos da época) entram na dança e formam um filme muito divertido. Papai Smurf e a aldeia se amarraram na versão suave de "I Want to Hold Your Hand". Ficou curioso? Clica aqui e confira.

NA TELINHA: como pode um filme noir ser iluminado? Em "Chinatown", esse paradoxo é possível através de uma história sombria ambientada em uma Los Angeles sempre ensolarada. A trama remonta ao cinema americano dos anos 40, quando detetives durões e solitários investigavam casos complicados, enquanto comiam suas clientes e fumavam maços e maços de cigarros. Assim é o personagem de Jack Nicholson, que transita por uma sociedade nociva e repleta de segredos monstruosos. A conclusão do filme é pessimista, parcial, doentia e escura. Após duas horas de sol, Roman Polanski encerra sua viagem no mais puro breu.

NA TELINHA: E já que estamos falando de filmes noir, Papai Smurf relembra um dos poucos clássicos dos anos 90. Criativo, sufocante e estupidamente maligno, "Se7en" apresentou o ex-diretor de clipes David Fincher e o astro em ascensão Brad Pitt como talentos de sua geração. Venhamos e convenhamos, entre todos os bonitinhos com cara de porcelana, Pitt é o mais talentoso, mesmo com suas limitações. Voltando ao filme, "Se7en" reúne dois detetives (um veterano e um novato) na caça a um assassino em série que usa os sete pecados capitais como inspiração. Na habitual trama do "detetive-brilhante-contra-o-bandido-mais-brilhante-ainda", o roteiro de Andrew Kevin Walker guarda reviravoltas, sequências tensas e uma das conclusões mais chocantes do cinema policial. Smurfette ainda pula na poltrona sempre que revê a sequência da punição à preguiça.

PS. Em "Chinatown", o lendário John Huston é dono de uma das falas mais debochadas do cinema: "Claro que sou respeitável. Eu sou velho. Com o passar do tempo, até políticos, prédios feios e prostitutas ficam respeitáveis". Adoro!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Boa de briga

Era uma vez, Antenor, o cavalheiro, e Geraldo, o oportunista...

Tudo começou em uma festa agropecuária em alguma cidade do interior, daquelas em que a população triplica durante o evento. Nesse tipo de ambiente, você tem duas certezas: alguma confusão vai rolar e os banheiros químicos vão ficar imundos.

Salvo algumas exceções, essa é uma máxima.

Enquanto um "Bruno-e-Marrone" da vida cantava a dor de ser corno, um casal decidiu lavar trouxas e trouxas de roupa suja em público. Ele xingava de um lado. Ela xingava do outro. Naturalmente, o clima ficou tenso e todos que passavam por perto sentiam que aquilo não iria prestar.

- Você é uma ingrata, uma babaca e uma... - o moço nem completou a lista de adjetivos. Ele engoliu o que sobrou do insulto com um diretaço na boca. O punho pequeno da menina se tornou um soco justo e técnico com a precisão de Bruce Lee. Surpreso, ele agarrou o pescoço da menina e armou o contra-ataque na mesma moeda.

Com o golpe engatilhado, o rapaz sentiu o braço ser agarrado pelo Antenor, o herói apresentado na primeira linha.

- Calma aí, cara. Não bate na menina - alertou Antenor, que estava com outros amigos. A tropa fez um cerco ao redor do sujeito, que, inibido, baixou o punho e tentou argumentar:

- Vocês viram o que essa cretina fez comigo, sô? - o grupo batia boca e a moça bufava de raiva. Ela não dizia mais nada. Só incinerava a todos com os olhos que faiscavam ódio. Enquanto a turma-do-deixa-disso tentava acalmar os ânimos, Geraldo, já turbinado por algumas doses de aguardente na cabeça, sentiu que havia uma brecha para um approach.

- Fica nervosa, não, gata. Ele não vai encostar um dedo em você. Eu não vou deixar - em poucos movimentos ele já estava com o braço esquerdo ao redor dos ombros dela.

E foi se chegando. E foi se querendo...

- Você merece um cara que te respeite, que te dê carinho, que te entenda, que te...

CATAPLAFT!

Outro soco.

Geraldo recuou três passos, enquanto tentava recuperar o equilíbrio. Voltou a si e procurou o tal namorado, aquele que tomou a primeira bordoada.

- Acerta a cara dessa vaca ou eu acerto. Anda! - berrou com a mão no olho que começava a ficar roxo.

QUAL A MORAL DA HISTÓRIA,
HE-MAN?

Amiguinho, preciso dar o braço a torcer e concordar com as suas duas conclusões sobre as festas agropecuárias: "alguma confusão vai rolar e os banheiros químicos vão ficar imundos". Faz tempo que folia no interior perdeu a inocência e virou, praticamente, sinônimo de micareta. Junte uma cacetada de homens de fora, umas poucas mulheres nativas, muita cachaça de boa qualidade e milhões de decibéis de Vitor e Léo, e o que você vai ter? Pois é, um barril de pólvora em potencial. Aliás, essa situação está toda errada. O que leva um casal a se estapear em praça pública? Como um dos seus amigos aborda uma garota transtornada? Que pessoas estranhas, hein? Amiguinho, estimule práticas de sustentabilidade com o papai, a mamãe e as sua professora. Você não sabe o que é sustentabilidade? Coloca no Google, seu alienado. Até a próxima!!!

quarta-feira, 24 de junho de 2009

As chamas da fogueira de sutiãs ainda ardem

Era uma vez, 1968...

Um grupo de feministas norte-americanas decidiu manifestar seu desejo por liberdade (em diversos sentidos) em um lendário protesto. Segundo registros, as moças empilharam uma cacetada de utensílios femininos, como sapatos de salto alto, espartilhos, cílios postiços, corpetes e sutiãs. Uma das gurias teve a ideia de tacar fogo em tudo. Os ânimos incendiários foram contidos pela polícia local, que ameçou levar todo mundo em cana ou mandá-las de volta para o fogão. De fato, a tal fogueira não exisitiu, mas a intenção criou mais que uma lenda: criou o divisor de água entre as mulheres submissas e a geração de fêmeas enlouquecidas que invadiu os anos 1970 com calças Saint-Tropez e pílulas anticoncepcionais.

Essa é a minha visão da história e introdução para uma aventura minha. Vamos pular dessa década longínqua para o nosso aprazível século XXI.

Mesmo com anos e anos após o bra-burning (queima dos sutiãs), o homem ainda se vê na posição de completo comando. Essa opinião só muda quando alguma fêmea esfrega em sua cara a verdade nua e crua: não há poder nenhum. Foi assim comigo.

Era uma vez, o ano de 2007...

Tudo começou em uma noite fria com uma reunião de amigos e algumas garrafas de vinho sobre a mesa.

Taça vem, taça vai, e eu já estava facinho. Bons tempos pré-Lei Seca...

O grupo de amigos começou a debandar. Como eu estava de carona, precisaria me infiltrar em algum carro ou pegar um táxi.

- Relaxa. Eu te deixo em casa – Elis, musa de olhos faiscantes, se ofereceu e eu topei.

Até aí, nada de absurdo.

Voltamos com o humor em alta e a língua solta pelo bom vinho tinto.

Gracinha vem, gracinha vai, estávamos ambos facinhos. Eis que Elis tomou as rédeas da situação.

- Para onde você está me levando, garota?

- Fica na sua. Você está muito tenso.

Minutos depois, eu estava no apartamento da moça. De verdade, eu estava achando tudo muito legal, mas permanecia aquela impressão de que algo estava fora da ordem natural. Teoricamente, a condição de dominante deveria ser a minha, certo?

- Tira a roupa.

Como assim? Essa mulher está exigindo que eu me dispa? Que absurdo! Virou bagunça?

- Tira logo.

Tirei.

Na manhã seguinte, acordei sozinho. Elis estava em algum outro cômodo do apartamento. Catei minhas roupas com uma sensação de que algo estava muito errado na hierarquia do "quem manda / quem obedece". Ela estava tomando café e percebeu a minha aproximação.

- Dormiu bem?

- Sim.

- Quer que eu te leve em casa?

- Não precisa.

- Vou chamar um táxi pra você.

- Obrigado.

- Quer que eu pague?

Hein!?!?! Ah, não! Taquelpariu! O que está acontecendo? Eu me senti uma "periguete". Fui raptado, usado e dispensado com o raiar do dia com o táxi pago. Que humilhação! O que os meus ancestrais machos, broncos e sinistros iriam pensar de mim?

- Não precisa.

Esperei o táxi chegar e voltei para casa sem entender a situação. Durante muito tempo, eu realmente me senti uma periguete. No fim das contas, achei sensacional.

Viva a queima dos sutiãs!

QUAL A MORAL DA HISTÓRIA,
HE-MAN?

Amiguinho, tá incomodado? Pois, incomodado ficava a sua avó, pois as netinhas dela não estão para brincadeira. Não adianta mais fechar os olhos para o inevitável: estamos lascados. A mulherada deixou de ser resignada e quer mais do que o papel de coadjuvante. Elas descobriram que têm a faca e o queijo na mão. Sabe o que nos salva, amiguinho apavorado? Mesmo com esse poder todo, elas só se sentem preenchidas ao lado de um homem. Na verdade o plano tem requintes de crueldade: elas fingem que precisam de colo e deixam a gente, pobres machos, com aquela falsa sensação de controle. Não é brilhante? Amiguinho, lembre-se de apagar as luzes quando elas estiverem sem uso. Até a próxima!!!





UM ESCLARECIMENTO: Elis e eu tivemos um caso. Isso deixou a brecha para essa atitude mais incisiva, mas não tirou a valentia. Eu não iria contar isso, mas achei justo pontuar.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Volto já!


A lojinha anda meio parada, mas o Surfista Platinado continua firme e forte. O lance é que o tempo para escrever anda meio escasso. De qualquer forma, continuo lendo e respondendo os pitacos. Se você quiser sugerir alguma pauta, aproveite esse momento de marasmo e deixe o seu recado.




segunda-feira, 15 de junho de 2009

Peter Pan e a busca pela eterna lua de mel



Ando meio jururu. Não sei ao certo se é efeito do frio, do Dia dos Namorados ou do alinhamento de Marte, Júpiter e os anéis de Saturno na caçapa do meio. E lendo blogs legais de pessoas divertidas, achei um parágrafo que sintetizou bem as origens da minha melancolia.

Abro aspas para Sunflower. Saca só:

"(Você) Abre a gaveta da sua escrivaninha e ao invés de ter milhares de papéis recolhidos em bares com nomes desconhecidos, números de telefone esquisitos e datas de aniversários aleatórias, (…) a gaveta está totalmente organizada e limpa, com exceção das contas pagas, extratos de banco e um convite de casamento".

Essa moça de 28 anos e pensamentos revoltos foi de uma clareza espetacular! Nossas gavetas ficam organizadas, nossas vidas custam dinheiro que saem das nossas contas bancárias e as noites são recheadas de pensamentos andarilhos. Sem fazer cerimônia, nossa vil cabecinha nos leva a um passeio nos Natais de ontem, de hoje e de amanhã.

Sim, essa é uma referência à obra imortal do Charles Dickens. Se não me engano, a melhor adaptação foi "O Conto de Natal do Mickey", que sempre passa nas manhãs do dia 24 de dezembro.

Às vezes, bate aquela nostalgia esquisita. Aquele demoníaco complexo de Peter Pan refletido no mais puro desejo de ver "Vale a Pena Ver de Novo" em plena tarde de quarta-feira. Aquela sensação de vadiagem irresponsável e deliciosa. Pode uma coisa dessas?

E o homem responsável com sonhos e ambições? Aquele cretino que decidiu virar homenzinho, morar sozinho, preparar o próprio jantar (no micro-ondas) e contar essas coisas em um blog? Esse rapaz vive em uma busca constante pela mulher que vai lhe render a eterna lua de mel.

A eterna lua de mel existe. É um objetivo complicado, mas é assim que é legal. Acho que cada um tem a sua concepção da eterna lua de mel. Tem gente que acha que é o clima de namoro renovado a cada dia. Outros pensam que é a menina que desperta borboletas em seu estômago a cada nascer do sol. Tem guris que se contentam com orgasmos a cada lembrança da presença dela. Escolha uma. Crie a sua.

A eterna lua de mel é o pico do Everest: alto pra cacete, mas alcançável. Jorge Amado e Zélia Gattai, Johnny Cash e June Carter, Roberto Carlos e Maria Rita não me deixam mentir. O Rei amou tanto que ficou meio zureta depois da viuvez.

Nesse aspecto, um malandro que admiro é o finado Vinicius de Moraes. O cara casou sei-lá-quantas-vezes, mas foi estupidamente intenso em cada relação. Ele foi o mestre jedi da eterna lua de mel. Ele soube que é difícil, mas o gostoso de viver é cair de cabeça nessas aventuras. Vai que você dá sorte. Vai que eu dou sorte!

Ver o Flamengo ser campeão brasileiro também é uma missão árdua, mas a esperança de cada rubro-negro se renova a cada ano. Então, por que diabos não posso vislumbrar a eterna lua de mel?

QUAL A MORAL DA HISTÓRIA,
HE-MAN?

Amiguinho, essa época fria do Rio de Janeiro está lhe causando efeitos esquisitos. O vitaminado e musculoso He-Man está preocupado com a sua pessoa. Meses atrás você foi ver "Benjamin Button" sozinho e teve um surto de inspiração e melancolia. Agora você está vendo seus amigos casando e fica borocoxô. Relaxa, garoto. O que é do homem o bicho não come. O teu está guardado – só não me pergunte onde. Isso é problema único e exclusivo da sua pessoa. Amiguinhos, não limpe os dentes com as unhas. Isso é nojento. Até a próxima!!!

PS. Pela reforma ortográfica, micro-ondas tem hífen. Infraestrutura não tem mais.
PPS: Mario e Karla, meus queridos amigos, você são a prova viva de que essa parada de eterna lua de mel existe. Que Papai do Céu mantenha vocês felizes pra caramba e que possamos tomar outros tantos porres homéricos juntos.

domingo, 7 de junho de 2009

O frio e o Rio

O Rio de Janeiro tem um rótulo difícil de tirar: cidade do sol, do sal e do sul, Rio 40º, cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos e blábláblá. Essa imagem do verão infinito, das areias escaldantes e da mulherada de biquini tira o foco para uma das épocas em que a capital fluminense ganha um charme especial: o outono-inverno.

As praias continuam lá, mas algo muda nas ruas do Rio. Nas esquinas, os termômetros deixam de marcar 30º e delatam assustadores 16º.

Minha gente, 16º em São Sebastião do Rio de Janeiro é motivo para decreto de estado de calamidade pública. Praticamente, uma nova glaciação.

O azul habitual do céu ganha contornos de cinza. Os ventos ficam gelados e as noites exigem que os cariocas tirem do armário aqueles edredons com cheiro de naftalina. Também é o período em que as mulheres da cidade ficam ainda mais charmosas. Os vestidos curtos são trocados por roupas pesadas e botas. Dá até para arriscar um cachecol.

Ah, as botas de couro... Descobri que adoro mulheres de botas. Será um fetiche?

A cidade fica com um ar de preguiça. As manhã são frias e sair da cama é quase uma tortura chinesa. Por outro lado, uma xícara de chocolate quente fica ainda mais saborosa.Também é tempo de ter sempre uma boa garrafa de vinho ao alcance. E os programas a dois são pretextos excelentes para um fondue. Aliás, coincidentemente (ou não), em plena estação gelada, há o fatídico Dia dos Namorados.

Fondue no Rio de Janeiro tem um contexto diferente. A moçada espera o ano inteiro para reservar uma boa mesa no Hansl e encarar as ruas sinuosas do Joá. Uma vaguinha por lá fica disputadíssima, mas vale a batalha. Com a sensação térmica de uns 12º, o casal feliz pode comer com a Barra da Tijuca iluminada na janela.

Momento esclarecedor: o Hansl é um restaurante austríaco muito tradicional na Cidade Maravilhosa. Ele é um dos lugares mais românticos do município e fica especialmente interessante nesta época do ano. Sou da geração em que um jantar no Hansl equivalia a uma declaração de amor das mais sinceras.

No inverno, a cidade fica mais aconchegante, mais europeia. Nós nos vestimos com a elegância dos paulistas, mas ainda temos a praia ao lado. Muitos cariocas desprezam essa época do ano. Eu a adoro.

QUAL A MORAL DA HISTÓRIA,
HE-MAN?
Amiguinho, você deve estar desesperado para descolar um cobertor de orelha neste Dia dos Namorados. Até crônicas fofoletes estão brotando neste seu simpático blog. Daqui do meu palácio em Etérnia, eu posso lhe dizer que acho o inverno carioca muito convidativo. Com a louca das estações, do aquecimento global e das teorias do Al Gore, o Rio de Janeiro não passava por um friozinho gostoso há um bom tempo. Pelo visto, 2009 será a redenção. Então, vá a luta e encontre uma boa companhia. Faça que nem o Rei: que alguém lhe aqueça neste inverno e que tudo mais vá para o inferno. Amiguinho, cuidado com tesouras e objetos afiados. Até a próxima!!!

quinta-feira, 28 de maio de 2009

A fúria nossa de cada dia


Não sei se você concorda comigo, mas, às vezes, o mau humor é uma delícia. Longe de mim a apologia à rabugice, mas os momentos em que vida não tem a menor graça podem ser estupidamente divertidos. Sua percepção para certos aspectos da rotina se ampliam e pequenas bobagens que despertam a sua irritação ganham um realce, uma cor. Aí, se você tiver um blog, assim como eu, é hora de escrever uma listinha de coisas que tiram a sua paz de espírito.

:: Festa de aniversário onde só vão casais.
Um amigo está para soprar velinhas e sou convidado. Beleza! Chegando ao local, descubro que o aniversariante só convidou casais. Vem cá, o que as pessoas comprometidas têm contra os amigos solteiros? Por que eles têm a obrigação de esfregar nas nossas carinhas livres e desimpedidas a sua alegria amorosa? Custa chamar algumas amigas igualmente descompromissadas? Custa! E com a maldita Lei Seca, mal dá para tomar umas e outras para relaxar e rir da situação.

:: Gente tapada querendo se passar por inteligente.
Ter limites culturais não é pecado. Ninguém é obrigado a saber tudo e creio piamente no aprendizado eterno. Mas, se tem uma parada que me tira do sério é um indivíduo com parcos conhecimentos querendo demonstrar sua sapiência. Aí, você dá um corte no infeliz e passa por malcriado. Saco!

:: Calça com aqueles fundilhos caídos.
A moda jamais foi o meu forte. Sou adepto ao bom e velho jeans, uma blusa bacana e uma jaqueta interessante. No armário feminino, sou admirador confesso dos vestidos (pretos, cáquis, estampados, floridos etc) e dos decotes elegantes. Mas, quem foi o estilista bêbado que criou as calças com fundilhos caídos? Talvez o cara que fez faculdade com o desgraçado que inventou as ombreiras, os casacos de oncinha, os óculos de gatinha e as calças de pregas. Reparou que os fashion designers da onda criam esses troços, mas sempre são fotografados com um pretinho básico?

:: Carros com som explodindo.
Um amigão me disse uma vez: "quanto maior a potência do som do carro de um playboy, pior será a música". Concordo. Ouvir música no talo é legal (eu confesso que faço isso), mas divirta-se sozinho. Não é necessário baixar os vidros das janelas, abrir o porta-malas e cantar junto o último sucesso dos Cavaleiros do Forró ou do MC Créu. Às vezes, acho que é uma forma de justificar o investimento. O sem-vergonha botou uma grana violenta no equipamento e se vê na obrigação de compartilhar o brinquedo com o restante da humanidade. Vá para o quinto dos infernos.

:: Gente que conversa no cinema.
Eu curto ir ao cinema em carreira solo. Além do pleno exercício do direito de ver o que der na telha, eu prefiro ver o filme em silêncio. Até pode rolar um comentário ou outro, mas tudo dentro dos limites. Só que tem neguim que se amarra em narrar a história ("olha só o Wolverine cortando o helicóptero"), criticar as presepadas dos filmes pipoca ("ah, mas que mentira é essa!") ou conversar animadamente ao celular ("alô? Miiiiga, sou eu. Eu tô no cinema, mas pode falar. Tenha váááários babados para te contar"). Será que eu tenho algum atenuante no julgamento se eu espancar uma figurinha dessas?

:: Pessoas que escrevem na língua da Xuxa.
"Oiiiiiiiêêêê, mIgUxO! Td XoU kOm Vc?". Hein? Como assim? Ser adolescente, internético e descolado é justificativa para escrever como um debilóide? Palavras inventadas que odeio: miguxo, vlw, xou, loko, kandu kiser (essas andam juntas) e outras representantes deste dialeto pré-tupi.

:: O amigão de dez segundos.
Ser simpático é legal. Ser atencioso é ótimo. Ser gentil é o máximo. Mas, virar o melhor amigo em dez seguindos é esquisito. Bom, você acaba de conhecer o sujeito e o cara se torna o seu melhor-amigo-de-todos-os-tempo. O sorriso fica grudado no rosto, ele concorda com tudo e... ele está sempre fazendo contato físico. O "amigão" tem sempre que encostar, apertar ou cutucar. Dá vontade de levantar uma plaquinha do tipo "favor não tocar na peça".

E você? O que te tira do sério?

QUAL A MORAL DA HISTÓRIA,
HE-MAN?

Amiguinho, esqueceu de tomar o seu Rivotril hoje? Ou está querendo fazer pose de menino malvadão para alguma leitora gatinha? Para cima do He-Man, não. O mau humor é tão natural quanto o próprio a alegria. Viver sempre nos limites da irritação ou do júbilo pode ser algum desequilíbrio emocional. Eu recomendo ir caçar um rabo-de-saia para aliviar o estresse. He-Man está muito econômico em sua lição. Amiguinho, lembre-se das palavras mágicas de todo dia: "obrigado" e "desculpe". Até a próxima!!!

quinta-feira, 21 de maio de 2009

A passarela de Cassandra

Cassandra, minha estagiária favorita, amiga querida e figurinha fácil nesse pardieiro, me passou mais uma de suas aventuras. Na verdade, uma dura lição sobre humildade, modéstia e realidade. Claro, que tudo é servido com tempero de piada.

Era uma vez...

Na doçura de seus 18 aninhos, Cassandra saiu para ir a um curso que frequentava. O lugar ficava a poucas quadras da sua casa e ela gastaria míseros quinze minutos de caminhada. Como sempre, ela passaria em frente a uma grande construção. E como não poderia ser diferente, sua jovialidade era plenamente contemplada pela peãozada da obra. Entre um fiu-fiu e outro, ela desfilava timidamente.

Só que naquela tarde, Cassandra sentiu-se ainda mais observada. Sua impressão era de que todos os olhos dos operários da construção civil tinham grudado na sua pele. Era estranho, mas legal. Cassandra ergueu o queixo e balançou a cabeleira negra. Até simulou um sorriso arrogante.

A tropa parou de martelar, cimentar e construir. Cassandra teve a certeza de que era observada. Sentiu-se a mulher mais gostosa do universo. Pisou ainda mais forte e balançou ainda mais os cabelos. Caminhou com força, com o peito estufado e o nariz empinado. Andou até sentir o chão ficar fofo.

- Ô, garota retardada. Sai do cimento, caceta!

Um dos trabalhadores berrou do segundo piso. Cassandra foi arrancada de seus devaneios e apertou o passo para dobrar a esquina o mais rápido possível.

QUAL A MORAL DA HISTÓRIA,
HE-MAN?
Convenhamos, essa nem precisaria da sabedoria incomensurável do He-Man para apontar a lição. Então, serei breve, pois tenho mais o que fazer. Amiguinhas, arrancar elogios da galera da obra não é nenhum desafio. O pessoal da construção civil sabe levantar a bola das moças com extrema competência. No entanto, a humildade é fundamental até diante da mais óbvia cantada. Seja diante da peãozada ou do carinha mais interessante, lembre-se de uma palavra: classe. Ou melhor, duas: classe e segurança. Chega. Até a próxima!!! Vou ver "Lost"...

domingo, 17 de maio de 2009

A fascinação dos peitinhos e os cinco adolescentes espinhentos


Quer deixar um adolescente louco? Mencione a possibilidade de ele ver alguns peitinhos de verdade. Nada de internet. Nada de revistas de sacanagem ou filmes eróticos. Meninos espinhentos tremem que nem vara verde com a simples possibilidade de ver seios de verdade. Falo isso com conhecimento de causa. Ora, eu já tive 14 anos.

Nessa tenra idade, em que os peitinhos eram reverenciados (e buscados) como se fossem o próprio Santo Graal, eu comecei a sentir os meus hormônios adolescentes funcionando.

Ah, os hormônios adolescentes. Gostei tanto deles que tento mantê-los até hoje.

- Garoto, você sabia que o pico da potência sexual vem aos 15 anos? - meu vizinho judeu de 70 anos me contou isso. Não sei de onde ele tirou essa história, mas eu acreditei. O cara era um alemão culto à beça e tinha uma tatuagem de campo de concentração no braço. Ele deveria saber das coisas.

Grande figura. Faleceu em meados dos anos 90, mas lembro dele até hoje.

Guardei a lição do vizinho alemão e fui lembrar dela em Cabro Frio, no verão de 1993 ou de 1994... não lembro bem. Não faz diferença. O que importa foi a descoberta de Pelé, um moleque de uns 13 anos.

- Cambada, descobri onde fica uma praia de nudismo. Dá pra gente ir de bicicleta.

Raciocínio instantâneo: nudismo = pessoas sem roupas. Pessoas = mulheres. Mulheres têm peitinhos. Peitinhos de verdade. Ai, ai, ai...

Na manhã seguinte, partimos em uma caravana de cinco garotos em quatro bicicletas. O Pelé não tinha uma bike e ia de carona com um de nós.

Peitinhos, peitinhos, peitinhos...

Parecia um daqueles filmes de Sessão da Tarde, nos quais sempre havia um grupo de amigos e uma aventura. Na verdade, nós nem éramos amigos. Tínhamos nos conhecido na praia e nos reunido para termos uma galerinha, uma panelinha formada. Isso ajudaria na hora da conversa com as garotinhas da área.

Adolescentes precisam muito de apoio para o approach. Muitos crescem e continuam precisando. Ema, ema, ema, cada um com seus problemas.

Pedalamos por uns trinta minutos. Depois de subir um morro imenso, a gente chegou a um rochedo com uma placa que dizia "Praia de Nudismo".

Era o paraíso, o El Dorado, o Shangi-La, o Eden. Ah, os peitinhos...

Não dava para seguir a trilha com as bicicletas. O restante do caminho teria que ser percorrido à pé. Deixamos as bikes no topo do morro e descemos. Pergunta se algum de nós se preocupou com a chance de roubo? É ruim, hein? Só tínhamos uma preocupação: ver os peitinhos.

Peitinhos, peitinhos, peitinhos...

Andamos por mais uns quinze minutos com os joelhos trêmulos e o coração pulsando que nem uma britadeira. Chegamos à areia branquinha e tivemos a nossa primeira surpresa. Aliás, um traumático choque com a realidade. Um cidadão afro-descendente (negão, melhor dizendo) caminhava preguiçosamente em nossa direção. Sua única vestimenta eram um par de havaianas e um óculos escuros. Ele se aproximou de nós e ficamos naquele clima apreensivo.O cara passou seguiu a trilha.

Ficamos em silêncio por alguns segundos, até que:

- Meu Deus do céu, você viram o tamanho do pinto daquele sujeito? - um de nós desabafou o que todos estávamos pensando, mas com um vergonha danada de confessar. Nossas risadas foram tensas. Decidimos ficar vestidos com as nossas sungas da Company, pois não queríamos nenhuma comparação desleal. Vai que o negão tinha um irmão gêmeo na praia.

E ainda tinha o problema dos hormônios adolescentes. Uma ereção repentina e incontrolável poderia gerar uma crise diplomática.

- Já passou, galera. Vamos caçar uns peitinhos.

Andamos pela areia com ar de naturalidade, mas com olhos atentos. Achamos os peitinhos, mas tivemos outra surpresa impactante. A praia era frequentada por poucas pessoas, a maioria de idade avançada, com quilos acima do ideal e sem o menor vestígio de glamour. Não encontramos nenhuma gostosa com seios durinhos e corpo escultural. Nenhuma americana peituda saída daqueles filmes da Sexta Sexy. Nada.

Pô, pedalamos meia hora, descemos um rochedo bizarro, encaramos um negão que tinha uma anaconda entre as pernas e o prêmio foram algumas gordinhas peladas. Que injustiça, que grande pegadinha cósmica...

Graças aos céus, não roubaram as nossas bicicletas. Voltamos para casa rindo horrores da experiência. Depois do verão, os cinco amigos se separaram. Nunca mais tive notícia dos caras. Também nunca mais voltei a uma praia de nudismo. A única coisa que ficou em mim, foi a predileção por seios.

Peitinhos, peitinhos, peitinhos...

QUAL A MORAL DA HISTÓRIA,
HE-MAN?

Amiguinho, você já conseguiu esquecer o negão? Você deu tanto destaque ao rapaz nu que temi por algum trauma remanescente em sua mente. Espero que você tenha superado esse drama. Bom, a lição do He-Man, fonte inesgotável de sabedoria e testosterona, é que a garotada sempre continuará subindo pelas paredes com a possibilidade de ver alguns peitinhos. É a tal fase das descobertas. Natural. A minha preocupação é a meninada está vendo peitinhos com muita facilidade. A internet facilita muito as coisas e essa horda de guris espinhentos tem tudo muito fácil e cada vez mais cedo. He-Man nem é careta, mas tem seus momentos quadradões. Amiguinho, evite tomar medicamentos por conta própria. Procure sempre uma ajuda médica. Até a próxima!!!

Movimento dos sem-namorados

A coisa tá feia para todos. Na sexta e no domigo, Rio de Janeiro e São Paulo (respectivamente) receberam uma manifestação inusitada: a passeata do MSN (Movimento dos Sem-Namorados). Tal presepada rende pauta. Em breve, voltarei a esse assunto, mas já deixo registrado para você não esquecer.

domingo, 10 de maio de 2009

Inês, a ex – Parte II (talvez, a parte final, quem sabe?)


Você lembra do drama do Aparício, o cara que se viu perdidamente apaixonado por sua ex-namorada? Caso sua memória falhe nesse momento, recomendo que você leia atentamente o texto que deu origem a essa saga. As linhas a seguir farão mais sentido.

Putz, não acredito que vou escrever sobre isso. Ai, ai, ai...

PRÓLOGO: Outubro de 2008.

Tudo (re)começou em uma manhã de trabalho, que foi totalmente alterada por um telefonema de número oculto.

- Douglas?

- Sou eu. Quem é?

- Sou uma amiga. Posso lhe chamar de Aparício?

- Como assim? Não estou entendendo.

- Você escreveu sobre a sua ex e usou o nome de Aparício, não? Eu sei que é você e sei quem é a Inês. Ela terminou com o tal carinha e está péssima. Ela precisa do suporte dos amigos e das pessoas que gostam dela. Sei que você é uma delas, Aparício.

Caramba, nunca uma história do Surfista tinha invadido a vida do Douglas. Meu queixo estava batendo no piso frio do escritório. Ah, uma revelação: o Aparício era eu mesmo. De vez em quando, eu conto histórias minhas em terceira pessoa. Não é sempre, mas acontece. Tcharam! Que surpresa, né?

- Conte mais.

Ela contou e eu liguei para a Inês.

Fim do prólogo.

Sete meses depois...

Escrevo para contar passagens da maior campanha amorosa que já empenhei. Durante dúzias de vezes, eu escrevi e apaguei. Sempre que começava a digitar, vinha uma dor bizarra e eu parava. Dessa vez eu vou até o final e juro que vou procurar ser objetivo na descrição dos fatos. Não quero tomar o seu tempo. Que tal separarmos a trama em atos?

Ato I – O primeiro contato
Liguei para ela e conversamos por horas. Ela estava triste e não ficou surpresa com a minha ligação. No fundo, ela sabia que eu sempre estive à espreita... esperando. Nenhum encontro foi agendado.

Ato II – O reencontro
Nos vimos pela primeira vez em anos. Ela estava usando um vestido lindo. Você sabe o quanto adoro mulheres com esse traje. Diante de tal golpe baixo, percebi que o amor que tenho por ela é absurdo. Ah, Inês foi fria com a minha presença. Normal.

Ato III – Tudo em pratos limpos
Com a proximidade constante, eu corria um risco terrível: virar amiguinho. Em uma noite de dezembro, estávamos no Rio Design e paramos para tomar um café. Sem qualquer anestesia, botei na mesa a verdade nua e crua.

- Inês, eu não reapareci para ser seu coleguinha. Eu ainda amo muito você, mais do que posso explicar, mais do que posso compreender. Nesse tempo todo que passamos separados, eu nunca deixei de pensar em você. Você é a mulher da minha vida e vou ficar com você. Se não for nessa vida, será na próxima. Quer açúcar ou adoçante?

- Eu sei. Eu sempre soube.

Claro que sabia...

Ato IV – Mostrando as armas
Roubei um beijo. Começamos a sair, mas Inês continuou na defensiva. Eu me declarei em outras 357 ocasiões – algumas com birita nas ideias, outras vezes sóbrio. Ela nunca me prometeu nada. Eu nunca cobrei nada. Tudo no 0x0, mas bem claro – como manda o manual dos bons modos.

Ato VI – De volta ao mundo real
Ela esqueceu o "carinha" e passou a me dar mais atenção, mas nunca correspondeu ao amor que declarei. Na verdade, ela continuou fria, distante. Cá entre nós, eu achava isso muito frustrante diante de tudo que eu demonstrava.

Posso desabafar? Na verdade, só o que eu precisava era de um tantinho assim de carinho. Eu não tive carinho de pai e mãe. Nada mais justo que esperar esse tipo de atitude da mulher que amo. Só que isso nunca aconteceu. É o jeito dela (eu sei), mas custava ser mais doce comigo? Era pedir demais?

Em abril, eu coloquei um ponto final na minha cruzada. Senti o meu coração cafajeste ficar miudinho, mas busquei forças sei-lá-onde. Como já cantou Lulu Santos, "se amanhã não for nada disso, caberá só a mim esquecer". A única certeza (e conforto) é que fiz tudo que pude - e até mais um pouco.

EPÍLOGO

Certo dia, uma amiga que tinha lido o texto do Aparício me perguntou porque eu chamei a ex de Inês.

- É uma abreviação, querida. Inesquecível.

"O Brasil é uma República Federativa cheia de árvores e de gente dizendo adeus."
Oswald de Andrade


QUAL A MORAL DA HISTÓRIA,
HE-MAN?
Amiguinho, você ficou maluco? Tomou uma dose Santo Daime com Red Bull? Você acabou de vestir a carapuça do capacho mais capacho que já caminhou sobre a superfície terrestre. Amiguinhos leitores, prestem bem atenção na história do Surfista Apaixonado e vejam o que acontece quando se perde a razão por causa do mosquitinho do amor. Sete meses? Putzgrilla! Espero que tenha valido a pena, Platinado. E espero que você tenha recuperado o juízo. Quer que eu te arranje uma senha para o parperfeito.com.br? Cada uma que me aparece. Até a próxima!!!

segunda-feira, 4 de maio de 2009

4:47 - A hora do "vamo ver"

Não sei se você concorda, mas acredito que toda pessoa passa por alguma situação em que sua vida é passada a limpo. Como se o elemento ficasse frente a frente com seu presente, seu passo e seu futuro. Eu passei por uma dessas.

4:47

Acordei com uma dor estranha no peito. Não era insuportável, mas era um incômodo. Misturei todos os pensamentos neuróticos e hipocondríacos que jamais tive, e, de repente, eu me tornei um personagem do Woody Allen.

- Vou morrer?

Parei. Botei a cabeça no lugar. Lembrei que sou forte que nem um búfalo, que tenho pressão 13 por 8, que tenho uma alimentação saudável, que tenho a linha da vida perfeita nas duas mãos, que ainda tenho muita lenha para queimar.

Ah, agora sim...

- Vou morrer sozinho?

Meleca! Não era para pensar nisso.

Como você pode perceber, não morri. Estou escrevendo sobre isso por causa do segundo pensamento.

- Vou morrer sozinho?

Que raio de sensação imbecil. Quase tão estúpida quanto a dor no peito. E foi a ignição para ficar pensando no escuro do quarto, numa madrugada silenciosa de um dia útil.

Até onde cheguei?

Eu moro em um apartamento que é o meu xodó. Tenho um trabalho que adoro. Tenho amigos fabulosos.

Até onde cheguei? Falta tanta coisa ainda.

Com o celular na mão, eu esperava o incômodo passar. Deixei dois telefones engatilhados: minha mãe e minha ex-namorada médica. Ora, ligar para a mamãe na hora do perrengue não é vergonha nenhuma. Mas, vamos combinar, ligar para a ex-namorada no meio da noite seria um tanto quanto suspeito.

O que eu conquistei?

Bom, tenho um blog que me amarro. Li uma cacetada de livros. Vi alguns milhares de filmes. Lutei um campeonato de jiu-jitsu. Falei "eu te amo" com sinceridade. Ouvi "eu te amo" com igual verdade. Fui a shows memoráveis. Comprei discos maravilhosos. Fiquei com a menina que foi o meu primeiro amor. Beijei na chuva. Aprendi a surfar (de verdade). Vi o Homem-Aranha no cinema, o que nunca imaginei que aconteceria. Vi o Flamengo ser campeão no Maracanã (e não foi só uma vez). Fiz um striptease parcial no casamento de um grande amigo. Fui a uma praia de nudismo aos 14 anos (taí uma história legal que ainda não contei aqui). Fui padrinho de quatro casamentos (e vem mais um por aí). Dormi em uma praça por causa de um rabo-de-saia. Ganhei um boneco maneiríssimo do Indiana Jones. Tomei porres homéricos. Tive experiências sobrenaturais. Mandei flores para uma garota. Recebi flores de uma garota.

Mas, e essa sensação de vazio, que veio junto da dor no peito?

Poxa, ainda não tive um filho para levar ao Maracanã. Não escrevi um livro. Não casei. Não tenho uma namorada. Ainda não acertei os ponteiros com o meu irmão. O que adianta tudo que fiz? Nada.

A dor passou, enquanto eu segurava o telefone celular. Não precisei ligar para minha mãe ou para a minha ex-namorada médica. Mas, a avalanche de pensamentos persistiram. Acordei decidido a fazer valer a pena cada momento, a buscar ser uma pessoa melhor. Não vim ao mundo de bobeira.

Assim, brega mesmo. Convicções sinceras partem de pensamentos bem cafonas. Já reparou isso?

Ah, sobre a dor. Fui ao médico no dia seguinte. Eram gases. Tenho a saúde de ferro, esqueceu?

QUAL A MORAL DA HISTÓRIA,
HE-MAN?
Amiguinho, quem veio primeiro: o ovo ou a galinha? No seu caso, quem veio primeiro: os pensamentos de ser um cara melhor e blá-blá-blá ou a tal dor no peito? Pensa nisso, garoto. Saca só as palavras sábias do He-Man: tudo ao seu tempo, tudo ao seu modo. Você não está acomodado. Parabéns! Pelo visto, você não é do tipo que fica sentado na poltrona em um dia de domingo. Mas, vai devagar. Um passo de cada vez. Se precisar, um passo atrás e dois para frente. Ah, o que seria de você sem mim, Surfista? Amiguinho, procure atravessar a rua apenas na faixa de pedestre. Até a próxima!!!


PS. Sou um cara realmente esquisito. Estou transbordando de alegria por uma série de razões e me pego escrevendo algo tão melancólico. Vai entender, né?