segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Faca entre os dentes, sangue no olhar

Um clichê batido e repetido à exaustão é o de que cidade grande é uma selva. O que considero mais curioso nessa constatação é como as situações transformam pessoas pacatas em feras vingativas. Virgínia, guria doce e angelical, que o diga.

Numa manhã qualquer, eu saí para tomar uma água de coco com Virgínia, amiga de longa data. Entre amenidades, trivialidades e novidades, ela começou a narrar a história que originou esse texto.

- Menino, nem te conto. Fiz uma coisa que achei nunca ser capaz.

Pô, revelações assim à luz do dia e sem uma gota de álcool? Preciso rever meus conceitos.

- Conte.

Já que atiçou, vamos nessa.

- Estou arrependida do que fiz.

Não pense em parar agora, cáspita!

- Prometo que não vou lhe condenar por nada. Nao sou santo também.

- Foi antes de ontem. Eu fui ao Barrashopping aproveitar uma promoção e para variar o estacionamento estava lotado.

Putz, shopping está sempre em promoção. Nunca vi uma vitrine sem uma mega-oferta, super-saldão ou preços arrasadores. Por que as mulheres também não percebem esse fato tão pitoresco? Hmmm, percebem sim.

Voltando...

- Acho que eram seis horas da noite e nada de vagas. Fiquei zanzando pelo estacionamento e comecei a me irritar. Doug, de onde sai tanta gente?

- Deve ser uma ação em escalas globais do Caboclo Gastador. Continua.

- Depois de muito rodar, percebi uma senhora guardando suas compras. Perguntei se ela estava saindo. Sim, estava. Calmamente, liguei a seta e esperei. Quando a senhora tirou o carro, vupt!, um babaca entrou na vaga. Caramba, que ódio!

- Isso é de matar.

- Foi o que pensei: vou matar o desgraçado. Ainda tentei apelar para o bom senso dele, mas nada. Falei que estava esperando, mencionei a seta ligada e o cara não deu a menor bola. Foi embora como se nada tivesse acontecido. Fiquei ainda mais furiosa.

Tá ficando bom! Alterações de comportamento e ações intempestivas sempre me interessam.

- E aí?

- Anotei a placa do safado, o carro e a localização no meu celular. Aí eu saí para caçar outra vaga, que só achei depois de mais dez minutos. Você acha que esse tempo esfriou minha ira?

- Nem me passou pela cabeça.

- Voltei lá no carro do miserável, mal-educado, ladrão de vagas e fiz uma obra de arte na porta dele. Fiz tantos riscos que a pintura parecia uma tela de Piet Mondrian. Saí discretamente e fui fazer compras com a alma leve e a sensação de dever cumprido. Só depois de uma ou duas horas bateu o arrependimento. Você acha que mandei muito mal?

Pedi outro coco e mudei de assunto. Esse negócio de avaliar histórias e dar lições é trabalho do He-Man.

QUAL A MORAL DA HISTÓRIA,
HE-MAN?

Amiguinha vândala e vingativa, onde vamos parar com tantas revanches e rancor? Como vamos espalhar o amor e a tolerância se ao menor incentivo ficamos com o sangue no olhar? Onde está a concórdia e o perdão? He-Man está muito desapontado com sua atitude ríspida e traiçoeira. Você deveria ter pensado nos prejuízos e transtornos que causou. Uma simples vaga vale isso tudo? Seria mais sensato ter esvaziado os quatro pneus dele. Amiguinhos, nunca entre no mar ou em piscinas sem a supervisão de um adulto. Até a próxima!

Ah, antes que o Todo-Poderoso He-Man esqueça, onde estão as perguntas desafiadoras? Dar lições de moral é legal, mas a rotina me aborrece. Sinto falta das questões desafiadoras. Agiliza aí, galera!

9 comentários:

Dzinha disse...

Olha, essas entidades ae eu não conhecia não, mas te conto o nome de uma que todo mundo sabe que existe e faz um mega estrago também.. o Exu Confeiteiro. aquele que traz até nossas narinas os deliciosos aromas de todas as guloseimas proibidas.
ai ai...... eu tive que repreender esse ae com muita força.
:D

B. disse...

questões desafiadoras? vamos lá: querido surfista, o que fazer para o rapaz ligar no dia seguinte?

Maria Amélia disse...

Confesso que frequentemente tenho essas vontades. Arranhar carro não porque tenho horror a arranhar qualquer coisa, hehehe, mas quebrar o retrovisor, furar os pneus...

Cíntia disse...

Quanto ódio no coração...

drika disse...

é, eu fico com os pneus furados. na verdade, eu rasgaria.
e quebraria as lanternas tb.
mas arrependimento não vale!!!

ps. eu lembrei no nem, mas me recusei a escrever este, pq um ser q usa isso, não merece nem 2 minutos de atenção!
beijos. e obrigada pelo prestígio!

ISO9002 disse...

Virgínia pegou pesado.
Melhor seria andar com um batonzinho vagabundo na bolsa para, numa situação dessas, escrever uns desaforos nos vidros do carro do sacana.
(Não que eu faça isso, hahahaha. Sou praticante de ioga e me controlo bem kkkkkkk.)

Para o He-man: os homens realmente se apaixonam pelas mulheres más? Ou isso é lenda?

Surfista disse...

Que raridade! Um texto comentado exclusivamente por mulheres (até o momento). O ambiente está até mais florido...

Mas vamos às respostas:

DZINHA, essa entidade eu não conhecia. Deve ser um freelance da tropa dos caboclos.
B., He-Man já está divagando sobre sua questão.
MARIA AMÉLIA, por essas e outras existe o crime passional no código penal.
CÍNTIA, imagina quando sai do coração...
DRIKA, sem dó, sem piedade. Ah, de nada!
ISO9002, sua sutileza é ímpar. O lance do batom seria o máximo do tapa com luva de pelica.

OBRIGADO A TODOS PELOS OLHOS ATENTOS!

Surfista disse...

Em tempo...

ISO9002, sua pergunta também está na pauta do He-Man!

damaria disse...

Me lembrei de uma coisa, hahaha, olha, não destrói, mas dá um trabalho!!!

Uma vez uma fulana escreveu altos desaforos no pára-brisas do carro de um amigo como MAIONESE! Isso mesmo... pegou uma embalagem do tipo sachê, fez um picote e fez a festa. Nossa, nunca vi ninguém tão puto!