domingo, 6 de julho de 2008

Mundo bizarro (ou o dia que não fez sentido)

Você lembra do Bizarro? Ele era um dos vilões do desenho dos Superamigos e representava uma versão tosca do Super-Homem. Vindo de uma realidade distorcida, deformada, ele era o inverso de tudo que conhecíamos ou fazia sentido culturalmente. Pois bem, no último dia 2 de julho eu estive no mundo do Bizarro.

Sem compreender bem, eu estava no Maracanã (ele, mais uma vez), porém não era do jeito que sempre estive. Ao contrário de dezenas de outras vezes, eu pisei naquele território sagrado sem vestir vermelho e preto. Pois é, enquanto milhões de tricolores se matavam por um ingresso, eu, flamenguista convicto, estava na torcida pó-de-arroz acompanhando a final da Copa Libertadores da América.

A materialização dessa anomalia foi para deixar meu pai feliz. Nunca fui tãããão sintonizado com ele, pois nossas afinidades nunca foram as mesmas (a começar pelo time de futebol e seguindo por uma cacetada de coisas). Rola um respeito imenso, mas nossas crenças não costumam se encontrar e isso acaba criando uma distância. Mas, fazer o quê, né? Pai é pai e decidi levar o coroa ao Maraca para que ele visse o Fluminense ser campeão. Pelo meu lado, a situação era bem simples: ou eu veria uma histórica vitória tricolor ou acompanharia in loco a desgraça de um rival.

Logo que entrei nas dependências do estádio, veio uma paranóia horrível, um medo cavalar que percorreu toda minha espinha...

E se algum tricolor me reconhece por aqui? Eu posso ser linchado.

Segurei a onda e mantive a calma.

Tudo vai dar certo. Tudo vai dar certo.

Uma vez acomodado nas cadeiras azuis, comecei a relaxar. E a primeira ação foi procurar algo para sacanear os tricolores depois. A observação inicial foi bem positiva: como havia mulheres bonitas ali. Os caras eram todos feios, mas a mulherada era de se tirar o chapéu. Não por acaso, ficamos logo abaixo de uma torcida organizada chamada... "Flu-Mulher". Como seria uma briga na "Flu-Mulher"? Tapas e puxões de cabelo? Seria uma torcida de mães preocupadas com seus pimpolhos no estádio perigoso? Acho que não, pois aí seria "Flu-Mãe", o que não pegaria muito bem.

Coisas do Fluminense e do seu Mundo Bizarro...

Pouco antes do apito inicial, uma abertura espetacular. Tirando o patético pó-de-arroz, a torcida fez uma festa extraordinária com fogos, sinalizadores, bandeiras, coreografias e música. As imagens no telão colaboraram com cenas dos jogadores e mensagens otimistas. Admito sem receio que fiquei impressionado. Meu pai, de queixo caído, quase foi às lágrimas. Ver o cara feliz me deixou feliz. Nessa hora, desisti de secar o Fluminense. Já que estava no Mundo Bizarro, eu faria parte dele.

Bola rolando e em poucos minutos aconteceu o improvável: gol da LDU. Como conseqüência, um silêncio de sepultura tomou conta do público. Foi nesse instante que eu fiz algo ainda mais imprevisível que o próprio gol da LDU.

- Neeeeeeeense! Neeeeeeeense! Neeeeeeeense!

O que eu estou fazendo?

Não sei como pude, mas eu puxei o coro para animar a torcida. Com o estádio inflamado, o tal do Thiago Neves se tornou decisivo e fez um gol. Depois mais um, e depois outro. O Fluminense poderia ser campeão e eu estava vibrando (não muito, mas estava vibrando).

Meu pai estava orgulhoso e cantava comigo todas aquelas músicas chatas dos tricolores. O título poderia vir sem prorrogação e sem penais. Mas não veio nos 90 minutos. E nem na prorrogação. Só restavam os pênaltis.

Aí você já sabe o que aconteceu. O escrete com a camisa de cortina de cantina italiana cobrou as penalidades de forma bisonha e o time equatoriano ficou com o caneco.

Olhei ao meu lado e meu coração se despedaçou. Meu pai, com os olhos de peixe morto, estava sentado e incrédulo. Resmungou algumas palavras sem sentido, xingou o Renato Gaúcho, avacalhou o Washington e logo foi tomado pelo silêncio.

O Mundo Bizarro começou a se desfazer e eu odiei o Fluminense como nunca antes. Nesse instante, eu constatei que eu não torci pelo raio do time das Laranjeiras: eu torci pelo meu pai. Eu fiz aquilo que quero receber de um filho meu um dia. Eu queria ser cúmplice de uma imensa alegria do meu velho pelo menos uma vez. Eu queria que ele soubesse sobre o meu amor e admiração de uma forma não verbalizada. O Fluminense não deixou.


.

QUAL A MORA DA HISTÓRIA,
HE-MAN?
Amiguinho, conhecendo você como conheço, posso lhe afirmar duas coisinhas. A primeira é que sua passagem pelo purgatório foi encurtada. A segunda e mais importante é que esse foi um dos gestos mais nobres que você já fez. A lição que espero ter lhe atingido é que a vida sempre nos apresentará inúmeras situações em que não poderemos ser teimosos como burros empacados. Sabe, nossas intransigências podem nos privar de momentos bacanas, como a sua noite no Maracanã torcendo para esse time hediondo. Amiguinho, desligue seus aparelhos elétricos durante tempestades. Até a próxima!


20 comentários:

carlamorim disse...

Puxa!! Parabéns, Surfista. Coisa mais linda o seu gesto. E o texto também.
Quando eu tiver um filho quero que ele seja assim como vc! Hehe.
Bjs.

Dzinha disse...

Agora o mundo voltou a girar na órbita certa.... Foi por sua causa que o Flu perdeu. Aff, Doug.... Nunca te falaram que não se deve assistir o time rival jogando ao vivo? Dá azar pros caras, pô.
Mas, deixando a sacanagem de lado, muito nobre o seu gesto com o papis. Lembrou o dia que eu e Dona Mãe trocamos confidências, sentadas na cozinha, tomando café.. hihihihi. Bem nesse estilo de "somos-diferentes-até-a-morte-mas-te-amo"

Beijinhos

Marcia disse...

Acho que é por isso que viemos ao mundo como pais e filhos, irmão-irmã, marido-mulher, etc... é que apesar de muitas diferenças continuamos amando o outro...
Caramba, esse meu comentário parece um texto bíblico...rs
Lindo seu gesto, Surfista..

Andrea disse...

Ah meu herói platinado...
Compartilho o seu drama, tb tenho muitas divergências c a minha mãe q criam relmente um abismo entre os dois mundos. Muito nobre o seu gesto , fiquei comovida e sensibilizada.Prometo pensar nele cada vez q minha mãe insistir p q eu leia Paulo Coelho.
Bjos.

Andrea disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cíntia disse...

Muito lindo seu gesto, Doug.
Ainda não consegui torcer pelo Corinthians pra agradar meu papai. Isso seria muito altruísmo.

E, poxa, eu fiquei secando o Flu, lembrei de você e na sua possível felicidade em vê-los perdedores.
Mas seu papai se recupera (isto é, se eles saírem da lanterna)!

Beijos...
obrigada pelo email :)

Dudu disse...

Você também ? :) No meu caso, fui apresentar o maraca para meu cunhado. Ele estranhou um pouco a passividade dos torcedores (ele é gremista, está acostumado a uma torcida que faz o estádio tremer, literalmente), e eu defini pra ele: "essa é uma grande torcida pequena, não tem o mesmo comportamento DE MASSA das torcidas de Vasco e Flamengo". E essa foi uma das grandes conclusões que tirei da tragédia dos tricolores.

Em tempo, além das mulheres bonitas, reparei também outro positivo: um clima de 'pracinha numa manhã de domingo' no entorno do maraca. Muito tranquilo mesmo

Alfa disse...

No dia do jogo, trabalhei o dia a noite e a madrugada toda. Fiquei com a tv ligada ouvindo o jogo. Não gosto de futebol, mas a gritaria no meu prédio foi tanta q eu tive que ver qual era a do jogo. Confesso que estava torcendo para o Flu, pq é um time brasileiro que iria jogar e não seria em qq lugar, mas em Tokyo.
Fiquei com pena dos tricolores, e só imaginei a tristeza do Pe Nelson.

Mari Mayo disse...

Doug,
fiquei até surpresa com a sua confissão de torcida pelo Flu, mas já te falei e insisto na teoria... que pé frio terrível!!! Ah, e seus comentários aqui sobre o FLU me deixaram mttt triste...

beijosss da sua amiga tricolora

Bárbara Pereira disse...

Surfista,

muito bacana você confessar publicamente suas fraquezas na condição de filho. Mais legal ainda é ver que você tinha conhecimento delas e encontrou uma belíssima forma de superá-las. Belo texto também! Ah, acho que você tem salvação mesmo. Não deveria ter sido tão maltratado no HTP.
Abraços,

damaria disse...

Acho que este é o melhor texto que já li aqui.

Surfista disse...

Torcer pelo Fluminense foi uma das atitudes mais impensáveis que já fiz. É como se um gremista roxo fosse ao Beira-Rio apoiar o Inter. Ou como se uma garrafa de coca-cola fosse lacrada com tampinhas da pepsi... sei lá, algo muito surreal mesmo.

CARLA, obrigado! Todos queremos receber esse carinho da nossa prole. Difícil é fazer.

DZINHA, olha minha preocupação imensa em dar azar pros caras. Eu ficaria preocupado se eu desse sorte. Bonita essa sua atitude com sua mamãe. Beijo!

MARCIA, praticamente um versículo, minha cara. Mas a idéia é essa.

ANDREA, é difícil pra caramba dar o primeiro passo, sabia? Mas depois do primeiro, vem o segundo, e o terceiro e a caminhada vai ficando mais fácil. Obrigado pelo "herói platinado".

CÍNTIA, pois é, não sou tão previsível assim. Espero que meu e-mail tenha lhe ajudado.

DUDU, não brinca que você estava lá? Por acaso você sentiu uma paranóia também? Uma sensação de que entrou na torcida errada por engano? Cara, acho que a torcida do Fluminense é uma versão um pouco maior daquelas torcidas de vôlei que ficam dando gritinhos pelo Giba.

ALFA, logo se percebe que você saca muito do velho esporte bretão. O campeão da Liberta vai para Yokohama. Faz tempo que Tóquio deixou de ser a sede do Mundial. Tudo bem, tudo bem...

MARI MAYO, dessa vez, não foi a minha intenção. Até queria que o Flu ganhasse, mas já que é assim, espero ser sempre pé-frio com o time dos outros. Se precisar, não perco mais um jogo dos tricolores. Quero ver brincar no Brasileiro agora.

BÁRBARA, esse blog não teria a menor graça (de ler ou escrever) se eu ficasse contagem vantagens. Ter a consciência das minhas mazelas e relatá-las por aqui é até um exercício de busca por melhorar a cada dia. E sobre o HTP, não esquenta, não. Entre farpas e flores, o saldo foi positivo.

MARIA, obrigado! Foi despretensioso.

contorcionista disse...

Muito nobre seu gesto, mas NEM A PAU EU TORÇO PRO PALMEIRAS! Sou Timão até nas próximas reencarnações!!!!!!

www.balzacsemprozac.blogspot.com

Dzinha disse...

Ah, mas vai dizer que eles não são lindos???

Beijos pra ti.

Vulgo Dudu disse...

Porra, Dougra... Tudo bem acompanhar o seu pai, tudo bem não secar aquela mixórdia que chamam de Fluminense... Mas porra, gritar Nense!???? Aí~não!

Abs!

Alfa disse...

Confesso que não entendo nada, mas eu sabia que eles iam para o Japão. Isso que me interessa! Não é Tokyo, mas é Yokohama. Aliás, quando fiz japonês, tinha um trem que saia de Yokohama, mas difícil mesmo era falar sobre o trem que saia de Shinjuki. A frase era assim: Shinjuki yuki densha desu ka. Logo qnd comecei, não conseguia falar isso por nada. Hj acho simples, mas escrever Shinjuki ainda é chato. Só perde para o "a" em hiragana no formato perfeito.
Eita saudade!!!

Surfista disse...

CONTORCIONISTA, se o seu homem fosse palmeirense ou são-paulino você iria ao Pq. Antártica ou Morumbi com ele? Na Mancha ou na Independente? É fogo, menina...

DZINHA, coruja!

VULGO, é uma mancha no meu histórico rubro-negro, mas foi uma em um milhão.

ALFA, tirou onda agora, hein?

contorcionista disse...

Meu macho é palmeirense. É claro que já fui ao Pq. Antárctica, mas para assistir ao show do Metallica....kkkkkkkkk

www.balzacsemprozac.blogspot.com

Nat disse...

Aiii! Como flamenguísta fanática q sou, acho q ir no Maracanã pra torcer pelo Flu seria café com leite, não estaria valendo!rs
Mas foi bem legal da sua parte!

Alfa disse...

Serei chique qnd puder convidar vc e os nossos amigos para conhecerem o Japão. Imagina a gente na estação de trem indo de Tokyo para Shinjuki! Vai ser uma super bagunça!!!
Depois desta viagem hilária eu escreverei um livro contando quase td sobre a temporada lá, mas para isso tenho que voltar para o japonês. Outro dia encontrei uns marinheiros japoneses e disse oi (momento alfa querendo matar saudades). Eles continuaram andando com um sorrisão. Como diria uma amiga, deve ser engraçado ver uma colona falando japonês rs...
Saudades de vc!

bjks