quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Favor não mexer com o porco

Assim como a maior parte dos endereços do Rio de Janeiro, meu lugar de trabalho fica perto de uma comunidade carente. Aliás, este termo é um eufemismo politicamente correto para a boa e velha favela, aquela onde o Capitão Nascimento aparece para "botar vagabundo no saco".

O que torna o meu local de ganha-pão diferenciado é a paisagem vista de qualquer um dos quatro cantos do prédio. Seja lá qual for o ponto cardeal, há uma favela. Para tornar tudo ainda mais emocionante, de vez em quando, uma das facções criminosas dominantes resolve invadir a comunidade vizinha ou entrar em confronto com a polícia.

Enquanto você fica acompanhando a invasão israelense à Faixa de Gaza pela CNN, eu vejo a guerra da minha janela (com vidro blindado). É o Big Brother 0800.

Mas, enquanto meu Anjo da Guarda faz hora-extra, há sempre uma história curiosa (e até engraçada) para contar.

Era uma vez...

Segundo me contaram, aconteceu há alguns anos. A van da empresa estava chegando à garagem. Subitamente, um porco atravessou a rua sem dar tempo de reação ao motorista. Dizem que o guincho do leitão, que pesava uns trinta quilos, foi ouvido pelo quarteirão inteiro. Tirando o bicho, ninguém mais se feriu.

No dia seguinte, um emissário do morro estava na recepção da empresa para tirar satisfações pelo assassinato do porco. Tadeu, o assistente social responsável pela tênue harmonia entre as comunidades e a empresa, recebeu o rapaz em sua sala.

Em bom português, a "tênue harmonia" é mantida pela política do "vocês não me perturbam e nós não perturbamos vocês". Só que dessa vez, alguém foi perturbado.

- Vão ter que pagar o porco. O comandante não gostou de terem atropelado o porco dele - o rapaz foi logo cobrando, e Tadeu percebeu que o nariz-de-tomada era o bicho de estimação do chefe da bandidagem. A negociação seria delicada.

- Fica tranqüilo. Nós assumimos a responsabilidade pelo acidente e vamos pagar pela morte do animal.

- De quanto estamos falando?

- Estamos pensando em dez cestas básicas.

- É pouco.

- Qual o seu nome?

- Jackson.

- Jackson, posso chegar a 15 cestas básicas, mas eu lhe adianto que esse porco não vale nem cinco. Você sabe quanto custa o peso da carne suína? Vai por mim. Você e o seu chefe estão saindo no lucro.

- Eu sei quanto custa a carne de porco. Mas, não é esse o problema. Vocês vão ter que pagar mais.

- Pelo porco? Tenha dó.

- Não. O bicho já deve ter virado feijoada na casa dos garis que cataram o que sobrou dele. Vocês vão ter que pagar pelo malote que tinha dentro do porco.

- Como assim?

- Sua van matou o principal meio de transporte de pó da região. Aquele porco fazia até três carregamentos por dia, e só o frete de ontem deveria custar umas cinqüenta mil pratas. Você sabe quanto tempo demora para um leitãozinho ficar daquele tamanhão? Então, vamos aumentando esse número de cestas básicas.



QUAL A MORAL DA HISTÓRIA,
HE-MAN?
Amiguinho, a moral da história de hoje não poderia ser mais clara e objetiva. Se você estiver transitando pelas cercanias de alguma comunidade do Rio de Janeiro (aquelas que aparecem na letra do "Endereço dos Bailes", e nem o Jack Bauer mete a cara), fique de olhos abertos. Se aparecer algum porco, enterre o pé no freio. Se não der tempo, prefira bater em algum poste. Aposto que o seu seguro não cobre acidente com um leitão à pururuca, recheado com outro tipo de farofa. Amiguinho, uma das formas de higiente é manter as unhas cortadas. Até a próxima!

15 comentários:

Ruiva disse...

Uhm... Agora faz sentido a presença de tantos porcos lá na comunidade onde eu trabalho..

Amanda Hora disse...

=O Nossa, vou olhar esses porquinhos com outros olhos agora. Tadinhos...

maria disse...

Pô... se o porco fosse meu, DANOS MORAIS!

Jongleuse disse...

MC Junior e Leonardo... trilha sonora da final dos anos 90! Era feliz ouvindo eles. Não tivara o CD (ou na época ainda era fita? não lembro!) do carro!

A Truculenta disse...

hahahahaha AMEI!
ótimo post e valeu pelo aviso! Dá próxima vez que for visitar o Rio, se ver um porco, eu miro no post! hehe
beijão

Anônimo disse...

rsrs morri de rir com a história do porquinho. Mas me diga: afinal quanto custou a morte desse tão estimado pet à empresa??
Bj
Lyla

Vulgo Dudu disse...

Sensacional! Tipo Snatch da vida real...

Abs!

contorcionista disse...

Sou Corinthiana, mas fiquei com dó do porquinho!
Torço para que esses canalhas morram com a droga enfiada no rabo deles! (Tô revoltada)

Dudu disse...

Muito bom! Teve uma dessas que saiu no jornal há uns anos atrás, falando de um porco que rolou uma ribanceira no Cosme Velho e caiu em cima de um carro que seguia rumo ao Rebouças. Não lembro, mas acho que o motorista se arrebentou todo.

Muleka disse...

Feliz 2009 Surfista!!! Menino que história bizarra heim. Eu acho que viveria estressada se tivesse um contato tão próximo assim de uma favela. Vc nunca sabe o que pode acontecer. Cuidado heim amigo. Beijos *)

Surfista disse...

RUIVA, viu? Tudo faz sentido agora, né?

AMANDA, seja bem-vinda. Se vale a lição, nada se resume ao que parece à primeira vista. Ainda mais no Rio de Janeiro.

MARIA, se o porco fosse seu, você estaria cobrando os meus patrões de uma forma menos jurídica.

JONGLEUSE, você era uma criança naquela época. Brincadeira! Essa música explodiu em meados dos anos 90, no mesmo período em que surgiram pérolas como "Era só mais um Silva" e "Eu só quero é ser feliz".

LYLA, esse detalhe financeiro não foi relatado por minhas fontes. Só sei que chegaram a um acordo.

VULGO, exatamente. Tipo "Snatch".

DUDU, não sabia dessa. Causos com porcos são mais comuns do que eu imaginava.

MULELA, feliz 2009! Não se preocupe. Em qualquer lugar do planeta estamos em perigo.

Anônimo disse...

Vc esqueceu do valor afetivo que tinha para o carinha. Pô, um porco de estimação uai...rsrsrsrsrs
Fiquei só imaginando como que o porco ingeria aquilo hein????
Pela frente ou pela traseira kkkkkkkk

Abraço

sofia fresca

iso disse...

Tadinho do porquinho. Eu nunca imaginaria...

drika disse...

dou graças à Deus que não preciso mais ir pra esses lados...
ufa!

Anônimo disse...

Ai que dó do porco, porra!