terça-feira, 6 de abril de 2010

Diários de bicicleta

Há cinco meses, eu estava na mesa de cirurgia arrumando o menisco e os ligamentos do joelho esquerdo. Tudo deu certo, mas ainda estou vetado de corridas, futebol e jiu-jitsu. O que sobrou: a bike velha de guerra.

Minha antiga bicicleta estava perdida em algum lugar do porão do prédio dos meus pais. A primeira missão era encontrá-la e torcer para que ela não tivesse sido devorada por ratos, traças, aranhas, ferrugem e outras pragas. Quase que milagrosamente, a magrela estava inteirinha, aguardando ver a luz do sol novamente.

Beleza! Então, entrei na fase do planejamento: como capturar a bike e voltar pedalando até o meu prédio. Analisei o trânsito da Barra da Tijuca, as ciclovias, a previsão do tempo e a melhor rota. Passei até no Google Maps para saber a distância exata – 7,4 km.

Moleza!

Ao fim de uma tarde de tempo nublado e temperatura amena, fui salvar a velha companheira de pedaladas. Escolhi o fim do dia por causa da segurança: com a hora do rush, as vias estariam engarrafadas e eu correria menos riscos de ser atropelado por uma Kombi da linha Barrashopping – Cidade de Deus. Calibrei os seus pneus, verifiquei se tudo estava inteiro e me lancei ao caminho.

Quinze minutos depois, eu já estava com a língua batendo no peito, o joelho esquerdo doendo pra cacete e a camisa o Flamengo encharcada de suor. Meu lendário preparo físico se escafedeu. A ciclovia estava detonada e o passeio suave se tornou uma réplica urbana do rally dos sertões.

Para piorar, a bicicleta começou a fazer uns barulhos esquisitos. Tive a impressão de que ela iria se desfazer. Quase na metade do trajeto, percebi que o pneu de trás havia murchado e não havia um mísero posto de gasolina por perto. O esforço físico aumentou, mas decidi prosseguir assim mesmo. Poderia ser pior. Poderia chover, mas a meteorologia garantiu tempo bom.

Kabrooooooooooommmmmmmmmm!!!

Começou a chover.

Climatempo filho da...

Faltando uns três quilômetros, a ciclovia acabou. Sobrou apenas a calçada, que ainda não havia sido pavimentada. Com a chuva, a terra batida virou lama e eu parecia um piloto de MotoCross. Pelo menos, o joelho consertado parou de doer.

Lembra do tal planejamento e a escolha pelo fim do dia para pegar o trânsito lento, engarrafamentos e blábláblá? Pois nesse dia, o Rio de Janeiro teve o melhor trânsito desde que as carruagens da Corte de Portugal trafegavam pela cidade. Os carros zumbiam nos meus ouvidos como se tivessem saído de Need for Speed – Underground 2.

A missão de fazer algum exercício no joelho e dar uma voltinha com a bicicleta velha ganhou um objetivo muito maior: chegar vivo em casa.

Quase duas horas depois de ter saído do prédio dos meus pais, cheguei em casa. Eu estava imundo, dolorido, exausto e furioso com a previsão do tempo. A bicicleta? Guardei na masmorra do meu prédio. Vai ficar de castigo por um bom tempo.

QUAL A MORAL DA HISTÓRIA,
HE-MAN?
Amiguinho, você é patético! Fica reclamando do passeio na chuva e esquece de que o seu joelho dodói nem doeu tanto assim. E quanto à bicicleta, bem feito! Quem mandou ser muquirana. Quebra o cofrinho e compra uma bike nova no crediário, pô! Amiguinho, fique de olho no vencimento das suas contas. Pagar juros é um pé no saco. Até a próxima!!!

15 comentários:

Jiu Jitsu Morada do Sol disse...

ahahhahah mt boa douguitos meu querido!

Vanessa disse...

Doug,
Como ja dizia minha mae (e o He-Man), bora chorar na cama que eh lugar quente...adoro seu blog!

Robs... disse...

Fala meu amigo Surfer!!

Cara, que aventura!!!
E sem planejar, ou melhor, tu fez um plano, Deus e o climatempo fizeram outro hein!

Abcs, cuida do joelho!

Gero disse...

Cara, voce mereceria um "premio abacaxi" so por ser alguem que finalmente conseguiu reconhecer a importancia do He-Man. Boas historias e muito bom humor aqui!!

Legal mesmo!

Abraços, urubu!!

Potira disse...

Fala meu caro, resolvi dar as caras, escolheu um belo dia para dar uma levar a bicicleta de volta pra casa...
Nas palavras do He-man deixa de ser mão de vaca e compra uma bicicleta nova rapaz....
Abração

Dudu disse...

Deixa ela de castigo, mas não muito tempo. Ela ainda vai te ajudar bastante nessa recuperação.

E curiosamente foi uma situação parecida (ocorrida em 2005) o estopim pra eu voltar a ser atleta.

Grande abraço (estou de volta)!

Contorcionista disse...

A minha magrela tb tá de castigo, mas o motivo é outro: aqui em Natal é grande o número de ciclistas atropelados por veículos. Eu não quero virar estatística!

Contorcionista disse...

A minha magrela tb tá de castigo, mas o motivo é outro: aqui em Natal é grande o número de ciclistas atropelados por veículos. Eu não quero virar estatística!

Maria disse...

esse teu texto traduz bem a culpa que a gente transfere pras coisas pra livrar a nossa pele dos nossos próprios problemas e de nossas imprudências.

tá, foi literal, mas poderia ser metafórico!

besos.

Camille disse...

Que aventura Surfista!
Aqui na minha terra não existe possibilidade de andar de bicicleta na rua, pelo menos não para mim!rss...
O trânsito caótico não permite!
Ainda assim, vejo alguns aventureiros como tu...
Sem falar das ciclovias que foram criadas, e que deixam muito a desejar...Pedalar com o odor do Rio Pinheiros, com a fumaça dos carros na marginal, poucos acessos...e por aí vai!

'Bora pedalar?

Anônimo disse...

Douglas chéri, faça natação que é a melhor coisa que existe para fortalecer o joelho (sem impacto). Não vá judiando assim do seu joelhito recém consertado. Conselho de quem também tem joelho dodói.
Beijocas, Lyla

Mulherzinha Sim! disse...

Conversa paralela via blog foi ótimo!

Quanto ao post, fiqui rindo sozinha imaginando a sua saga. Como diria um amigo meu, que ideia de girico! rsrs

Beijos

Barbara disse...

Ao menos você está vivo nesse caos que está no RJ. Já pensou ter que fazer natação nesse lamaçal ao invés de pedalar? Furada na certa!

Bjos

Surfista disse...

GERO, obrigado. O He-Man é um poço de sabedoria ainda pouco explorado. Eu apenas lhe dei voz e veneno.

MORADA, que visita inesperada! Grande abraço!

VANESSA, obrigado!

ROBS, o joelho está em tratamento. Tá quase quase novo.

POTIRA, pois é, pelo visto vou ter que quebrar o cofrinho.

CONTORCIONISTA, pedala na Ponta Negra, ué!

DUDU, estou certo disso! E também estou certo de que logo logo volto a ser atleta.

MARIA, você e suas interpretações transcendentais. Seu pitaco lembrou a história do marido que encontrou a mulher lhe traindo no sofá. O que ele fez? Vendeu o sofá.

CAMILLE, e o Ibirapuera? Bora pedalar!

LYLA, já pensei em nadar, mas falta um piscina decente por perto. Pedalar é uma atividade que conta com supervisão médica. Beijocas!

MULHERZINHA, entre mortos e feridos, salvaram-se todos - especialmente, a história.

BÁRBARA, a chuva que peguei foi o aviso da tempestade que estava por vir.

Maria disse...

Advogado sempre interpreta as coisas das formas mais loucas. A nossa graça é a interpretação :)