sexta-feira, 11 de abril de 2008

Quem mexeu no meu queijo?

Gosto demais do nordeste do país. Tive o prazer de morar em Aracaju e durante esse período corri o litoral inteiro, com a exceção de João Pessoa (estou em débito). De todos os estados, um que guardo especial recordação é o Rio Grande do Norte. Se você não conhece, faça o favor de colocar essa região no seu próximo roteiro de viagens. Ô estado bacana, tanto por suas quase infinitas belezas naturais, pelo seu vento constante, quanto pelo seu povo hospitaleiro. Como sempre, as pessoas me atraem e o potiguar, com seu jeitão sorridente-sem-ser-falso, rende histórias. Entre tanta gente legal, os broncos acabam se sobressaindo quando são encontrados. Essa aventura envolvendo um poço de delicadeza veio até mim por uma amiga e assim que a ouvi percebi que estava plenamento inserida no contexto do Surfista Platinado.

Era uma vez...

Debaixo de um sol daqueles de fritar ovo no asfalto, dois casais viajavam de volta à Natal. Ao passarem por Caicó (não sabe onde fica? Vai ver no mapa), um deles se lembrou de um queijo de coalho maravilhoso que havia comido uma vez e era vendido logo ali. Como a guloseima estava na rota, pertinho de onde passariam, e o queijo do Rio Grande do Norte tem reputação internacional não restaram dúvidas. Resolveram fazer um pit-stop para compras.

O relógio batia 13:20 e o sol escaldante do sertão fazia o ar-condicionado do carro trabalhar dobrado. O tal queijo tinha que valer muito a pena.

Chegaram em frente ao estabelecimento e este não poderia ser mais pitoresco: ficava dentro da casa do vendedor, porém com o seu espaço devidamente delimitado. Um acesso direto para a rua e outro para a varanda da casinha. Viram a plaquinha de FECHADO e logo abaixo o horário de funcionamento: 8h às 12h e 14h às 18h.

Chuááááá. Ducha de água gelada.

Ficaram desapontados, mas logo se animaram quando viram na varanda ao lado um velhinho lagarteando ao sol na sua cadeira de balanço. Foram até ele.

- Boa tarde, senhor!

- Boa tarde!

- A gente queria comprar queijo...

- Tá fechado.

- Será que o senhor não poderia abrir uma exceção? Estamos indo pra Natal, a estrada é longa.

- Tá fechado! Só abre de duas horas!

Velho muquirana!

Voltaram para o carro chateados com a rispidez do homem, mas lembraram do lendário sabor do tal queijo e resolveram esperar. Para piorar, nenhuma mísera sombra de árvore havia por perto.

Um parêntesis: lá em terras potiguares venta muito no litoral, mas no interior não rola sequer uma brisa. E como o verão lá vai de janeiro a dezembro, já viu, né?

Voltando...

Passados os quarenta minutos de infinita espera, viram o senhor simpático levantar-se e abrir a vendinha. Foram lá ansiosos por saírem dali com quilos e quilos do delicioso queijo.

- Boa tarde senhor!

- Boa tarde.

Através do expositor de vidro apontavam quais pedaços levariam.

- Quero dois desse, mais dois daquele ali, mais três daquele outro...

O velhinho pegou o queijo e colocou em cima da bancada já para embalar.

- Quanto é cada pedaço?

- Nove reais. Cada pedaço tem 1kg.

- O senhor faz os quatro por 30 reais?

O velhinho encarou seriamente o cliente por dez segundos. Parecia que sua mãe tinha sido xingada.

- Acabou o queijo!

Danou-se!

- Não, senhor, peraí! Eu pagos os 36 reais, não tem problema. Desculpe.

- Acabou o queijo! Tem mais queijo aqui, não!

Os dois casais quase foram expulsos a pontapés da lojinha. O tal queijo maravilhoso ficou na lenda. Voltaram para Natal de mãos abanando, mas no fim da viagem, já estavam morrendo de rir da situação.


***


Obrigado pelo causo, Carla.



QUAL A MORAL DA HISTÓRIA,
HE-MAN?
Amiguinho a história de hoje deveria ser apresentada nos MBAs da vida. É um claro exemplo de monopólio. Sabe o que é monopólio? He-Man é cultura e te explica: é a comercialização exclusiva de um produto em um mercado determinado sem concorrência ou bens substitutos. O velhote muquirana mandava e desmandava porque tinha pleno domínio do seu mercado e seu potencial econômico. Mas quanto aos dois casais, que coisa feia, hein? Negociar seis contos depois de torrar no sol por quase uma hora. Mas aposto que não foi um prejuízo total, pois o Rio Grande do Norte tem outros petiscos, como o camarão e a castanha. A lição final do He-Man é uma dica turística: ao visitar Natal, fique na Ponta Negra e tire um dia para comer no Camarões, o melhor restaurante do estado. Até a próxima, amiguinho!!!

23 comentários:

Negâ disse...

Muita boa história,rsrsrsrs

Beijos He-man

Vulgo Dudu disse...

Mas que velho chato! Cadê a tal hospitalistade dos potiguares? O casal não argumentou? Afinal, eles não estavam apontando quais queijos queriam levar?

Abs.

marcia disse...

Nossa, Surfista, esse seu post me trouxe ótimas lembranças, morei em Natal por 5 anos. Lá tem o famoso "tem, mas acabou!" e outras esquisitices. Mas no geral, o povo lá é bem bacana. Uma vez conheci um Natalense no Orkut, nas vésperas de viajar pra lá..Eu já tinha onde ficar e minha amiga ia me pegar no aeroporto. Sabe que esse menino me ligou na hora que cheguei, de madrugada, pra saber se eu precisava de carona ou lugar pra ficar? Achei muito legal, vindo de alguém que eu nunca tinha visto.
Ops, que comentário imenso. Mais estorinhas, só numa mesa de bar...hehe

Bibi disse...

Natal é simplesmente a minha cidade favorita depois do Rio de Janeiro. Estou até pensando em voltar lá nestas minhas férias.

Mas ô velhinho teimoso, viu?! Vou me lembrar de não pechinchar com nenhum vendedor de queijo coalho...

Beijos!

Dani Amorim disse...

Minha terrinhaaaaa!!!
*Bibi vem e vai ficar na minha casa! Nhá!
*Os broncos nao sao seres tao raros. É só ir num show de "alguma-coisa" do forró p vc ver sua proliferação tal qual fungos.
*O Potiguar (q significa Comedor de Camarão) é sim um povo hospitaleiro
*Dizem q os habitantes de Caicó e redondezas qdo morrem e vão ao inferno levam cobertor... Aquilo nao eh quente nao, eh a muléeeeestia!
*Entao num canto desses, levar uma "ducha de agua fria" pode ser interpretado como um prêmio! haha
*O queijo de caicó é indiscritível, como seus bordados.
*Enquanto esperavam o estabeleciemento abrir, era p terem se esbaldado de "picolé caseiro de caicó, na sua rua, na sua porta... vai passando o picolé!
*Ah, e comido filhóes (bolinhos) com mel de rapadura. BOM DÊ-MÁS!
*Putz, q velho estúpido! E não há assim um monopólio, há várias vendinhas com a iguaria laticínia!
*O Camarões não é só um restaurante, é um ponto turístico obrigatório. Todos os pratos sao maravilhosos, mas sugiro o "Camarão do Chef", q tem arroz com ervas. So comi desses lá.
*EU MORO EM PONTA NEGRA! HA HA HA
*Como Márcia falou, aqui tem o "Tem, mas tá faltando", principalmente nessas vendinhas ;D
* E se alguém te chamar de "galado" não se ofenda. O nome é feio mas nem sempre usado pro mal. É como escroto (q se pensarmos bem, nao eh taooo bonito. Um sai do outro. aAHuhaUHA)
***E pra terminar, um "xêro" bem nordestino p todo mundo. Vixe, ficou qse um post meu comentário! hhahaha

Mari Martins disse...

UASHAHSHAHSAUHHSU
Ótima históriaaa! Velho muquiranaaaaaa! E, haha, o casal se ferrou muuuuuuuuuuito feioo!


Beeijo !

Cíntia disse...

Voltei, mocinho.

E que bela história, lembra-me quando fui a Tiradentes comprar delícias em compotas. Pelo menos o cara negociou bem!

Você anda sumido, também...

um beijo!

Surfista disse...

NEGÂ, obrigado! Semana que vem, He-Man lhe responderá na semana que vem.
MARCIA, isso é um convite?
BIBI, excelente roteiro de viagem.
MARI MARTINS, uma figurinha curiosa do cenário potiguar.
CINTIA, apareceu! Por onde andou você?

E , especialmente:

DANI AMORIM, quantas informações sobre a belíssima Natal. Dados valiosos para aumentar o encantamento por essa cidade e despertar em todos a vontade de seguir viagem amanhã mesmo. Ficou ainda mais interessante pela sua maneira nordestiníssima de escrever. Perfeito!

Cíntia disse...

mandei um email para o senhor!

Carla Amorim disse...

Êêêêê!! Legal a publicação! rss Lisonjeada...rss. Ficaram ótimos os floreios platinados rss :-)
Mas eu admiro o velhinho... isso é que é valorizar o seu produto! rss... claro que ele pegou meio pesado... Mas como falei de outra vez, tem hora que dá mesmo vontade de dizer "acabou o queijo" e rasgar o projeto! Tem gente que é muito sem noção na hora de pedir um desconto e até ofende!

Bjs!

carla amorim disse...

Para o He-man:
Querido He-man, não acho que a questão aí tenha sido de monopólio. Acho que o 'véinho' tinha convicção da qualidade e do valor do seu produto e por isso se sentiu ofendido. Além de dizer "acabou o queijo" ele também poderia ter dito... "quer a 5 conto o quilo? tem ali na outra esquina... mas o meu é 9!!"... hehehe.
Lembranças ao Gorpo.

rafa disse...

haIUahUAHIUahihuAIAHIUHaiuhAIUH

Sacanagem desse velhinho!! Se fosse comigo tinha xingado horrores! hehe
Mas como o He-Man explicou mto bem..quem manda ele ter o monopólio dos queijos da cidade??

bjo

Dani Amorim disse...

Eu fico imaginando as vezes as pessoas lendo meus textos com sotaque, como vc diz q o faz.
Na comunidade de um cantor q sou fã alucinada, Jorge Drexler, uma vez comentei q depois de um trecho de Soledad (q ele canta c Maria Rita)eu sempre baixava a cabeça, levantava o dedo e bradava: "Eeeeeeeeita bixiiiiga!!!". Algumas pessoas depois escreveram dizendo q nao ouviam mais a musica sem pensar no EITA BIXIGA, e nenhum era nordestino.
hahahahhahahahahhaah

Surfista disse...

CÍNTIA, você é fora de série.
CARLA, os floreios platinados só realçaram sua história.
RAFA, os domínios do velhotem são vastos. Na região, ele é o Imperador dos Queijos.
DANI, "eita, bixiga!" foi ótimo. Vem cá, você é parente da Carla?

Carla Amorim disse...

Surfista... se eu e a Dani Amorim somos parentes, ainda estamos por descobrir rssss. Já pensou? Mais uma utilidade pública do Surfista Platinado - encontre aqui os primos que vc nem sabia que tinha.

Bjs.

Surfista disse...

CARLA, duas Amorins na mesma região é coincidência demais.

Carla Amorim disse...

Então Dani... vamos consultar nossas árvores genealógicas? rsss

Babs disse...

Tão bom quanto o texto estão so comentários...
He-man, é mera coincidência a maioria feminina comentando?
Bjo

Surfista disse...

CARLA, confira mesmo. Vai que o Surfista Platinado ajudou inconscientemente a reunião de famílias dispersas.
BABS, geralmente, a maioria dos comentários tem origens femininas. Por quê? Sei lá. Talvez as mulheres sejam mais simpáticas. Talvez os homens sejam mais inibidos. Quem sabe, a razão é por eu escrever tanto sobre o universo feminino (gosto muito, por sinal). Vai saber, né?

ISO9002 disse...

BABS, esse surfista é um sedutor, por isso a maioria feminina. Rss.

Babs disse...

Pois é, às vezes também a pseudociência do segredo tem lá sua verdade. O surfista deseja e elas aparecem...
Bjos

Surfista disse...

Depois desses dois últimos pitacos, peço licença para ficar insuportável pelo resto do dia.
Beijos platinados.

PS. E viva o "segredo"!

Jongleuse disse...

Parece lenda mas é verdade... certa vez, em Salvador, eu e uma maiga famos tomar café da manhã numa paradaria.
eu pedi um suco de laranja e ela um toddynho.
Um senhor, com pinta de ser o dono do lugar saiu arrastando a sua sandália de couro como se ela pesasse 50 quilos e pegou o Toddynho. Depois foi pro outro lado do balcão, pegou o espremedor de frutas, começou a escolher umas laranjas... De re pente ele parou, olhou pra mim e perguntou: "Não pode ser uma fanta não?".