segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Roubada

Sou um otimista convicto e assumido. Não perco tempo reclamando e também não pronuncio a palavra a-z-a-r, porque dá uma azar danado. No entanto, certas situações são tão estapafúrdias que ficam no extremo: o fracasso devastador ou um sucesso incompreensível. Sem essa de meio do caminho. Quando eu conheci Eliane, a história já começou esquisitona.

Pensa comigo: uma coletiva de imprensa do Ney Matogrosso é lá oportunidade para puxar assunto com uma moça? Me espelhei no Romário e falei comigo mesmo "para o artilheiro, qualquer meio-metro quadrado é espaço suficiente para tentar o gol". Só que de Romário eu não tenho absolutamente nada. Mas, como eu já disse, sou otimista, e eu não poderia deixar escapar a chance de conversar com aquela menina de olhos esmeraldas e cabelos curtinhos. Entre uma piadinha aqui e outra ali, eu descobri o seu nome: Eliane. Ela era paranaense, mas radicou-se em São Paulo. Ela trabalhava para um grande portal de Internet e morava no Rio há poucas semanas. Estava adorando, pois se descobriu apaixonada pela praia e pela cidade. Ah, os paulistas... fazem pouco caso da Cidade Maravilhosa, mas quando se entregam é amor total.

Depois do bate-papo com o Ney Matogrosso, trocamos telefones. Aliás, impressionante como o Ney não envelhece. O cara continua do mesmo jeitão da época dos Secos & Molhados. Quando olhei para ele, visualizei o cara requebrando e cantando "vira, vira, vira homem. Vira, vira lobisomem". Medo!

Durante as semanas seguintes, seguimos conversando por telefone ou e-mail. Descobri mais sobre o seu bom gosto musical, sobre seu passado anarquista, sobre sua independência de tudo e outros detalhes cativantes. Papo vem, papo vai, o que interessava era que eu queria revê-la. Como ela era uma mulher sofisticada, inteligentíssima e segura de si, eu teria que escolher um programa interessante para lançar a isca. Eis que surgiu uma oportunidade interessante: um show de uma banda alternativa no finado Rock in Rio, lá na Barra. Fiz o convite, ela... aceitou.

Descolei os convites e combinamos o horário.

- Eu vou direto do trabalho e a gente se encontra lá – como ela era independente, superiora. Aqueles olhos de esmeralda não eram de brincadeira.

No dia marcado, eu cheguei da academia e fui correndo me arrumar. Esqueci até o quimono fedorento de jiu-jitsu no banco de trás. E daí? Ela estava de carro, mesmo.

- Enquanto você estava no banho, peguei seu carro emprestado e fui comprar uns peixes para o almoço de Páscoa. Aquele seu quimono está insuportável – meu pai avisou.

- Pode deixar, pai. Minha malha de balé não fede.

E lá fui eu perfumadinho para o Rock in Rio.

Eliane chegou protocolarmente atrasada e estava linda de uma forma simples: blusinha social, jeans preto e aquele ar de profissional. Como boa paulista, ela me cumprimentou com apenas um beijo na bochecha. Fiquei com o rosto balançando esperando o segundo.

Bebemos e rimos bastante. Lá pelas onze horas, começou o show e a tragédia. Nem lembro o nome da maldita banda, mas lembro da primeira música que o vocalista gordinho cantou.

- Essa canção é a história de um amor impossível entre mim e minha empregada.

Glup!

- Neumaaaaaaaar, eu te amo! Neumaaaaaar!

Olhei para a Eliane que arregalou os olhos de quartzo verde. Ela olhou para mim com cara de "o-que-diabos-é-isso?"
Ai, ai, ai...

O show foi uma desgraça. Cada música pior que a outra. E o gordinho vocalista cantava mal demais. Pior que o espetáculo de horror não acabava. Parecia o show do Santana na Praça da Apoteose.

- Vamos embora? – eu convidei. Ela fez um gesto positivo com a cabeça. Eu precisava salvar a campanha.

Saímos do Rock in Rio e eu me senti aliviado. Minutos depois estávamos na imensidão do estacionamento do Barrashopping.

- Meu carro ficou um pouco longe. Você pode me dar uma carona até ele?

- Claro – como bom cavalheiro, fui abrir a porta para ela e quase fui dominado pela empolgação. Nesse instante, eu lembrei:

Quimono fedorento + aroma de peixe = inhaca terrível.

Fechei a porta.

- Melhor não. Vamos andando – falei.

Ela mesmo abriu a porta do carro e entrou. Corri para me explicar...

- Olha só, o carro está com um cheirinho ruim por acidente. Não é sempre assim. Eu juro por tudo que é mais sagrado – metralhei.

Ela não disse nada. Só abriu as janelas. Pra bom entendedor...

Paramos ao lado do carro dela. Ela ficou me olhando e eu fui para o tudo ou nada. Me estiquei todo para roubar um beijo. Meu telefone tocou como se fosse uma sirene do Corpo de Bombeiros. Pensei em não atender, mas aí ficaria feio. Pareceria que eu estava escondendo algo.

- Oi, mãe. Volto pra casa daqui a pouco. Boa noite. Beijos. Mãe, eu não estou bêbado. Beijo.

Desliguei. O que mais faltava acontecer em termos de degradação?

- Sua mãe te liga à noite? – fui humilhado pela pergunta.

- De vez em quando. Ela se preocupa comigo – só me restou a sinceridade.

Eliane riu. Eu ri também.

- Estou saindo com um garoto. Um garoto do Rio.

- Estou saindo com uma mulher linda.

De repente, como se fosse um passe de mágica, o jogo virou e todas as adversidades foram esquecidas. Consegui roubar aquele beijo e ficamos juntos por alguns meses.

Um belo dia, eu a perdi por pura negligência minha. Ela voltou para São Paulo. Em um feriado perdido, veio ao Rio para me rever. Ela estava com cabelos compridos, mas com os mesmos olhos de turmalina e aquele sorriso contagiante. Depois disso, não a vi novamente. Eliane enfrentou uma barra pesadíssima, e, apesar de toda sua valentia, não resistiu. Deixou em mim e em todos que a conheceram uma penca de histórias antológicas, e, claro, muita saudade.

***


QUAL A MORAL DA HISTÓRIA,
HE-MAN?
Amiguinho, a partir dessa história, eu poderia escrever um livro sobre idiotices. Nem sei por onde começar. Bom, seja otimista, mas seja previdente. Mantenha seu carro sempre apresentável e com as mínimas condições de apresentação. Jamais esqueça itens malcheirosos no seu interior. Outra estupidez é deixar o celular ligado. Aposto que você sobrevive com seu aparelho desligado por uma hora ou duas. Para finalizar, seja lá qual for o programa, pesquise para ver qual é a da parada. Um show de death-metal não é bem o clima para roubar o primeiro beijo. Exceto se a moça for uma gótica invasora de cemitérios. Para saber mais sobre o assunto, procure a biblioteca da sua cidade. Até a próxima!

8 comentários:

Vulgo Dudu disse...

Eu lembro dela. Fiquei muito chocado com o que aconteceu, apesar do pouco contato.

He-Man e seus conselhos, como sempre, pertinentes. Ele devia ter dito também para não colocar "gleides" e nem sachês perfumados no interior do veículo. Porque aí mistura com o fedor e a coisa fica feia.

Abs!

carlamorim disse...

Ri tanto no começo, mas acabou tão triste. :-(

Acho q me redimi. Li tudinho!!
:-) Voltarei sem precisar sem lembrada!

Paulinha disse...

Noooooooosssaaa..... ninguém merece pano federonto dentro do carro... por que homem tem mania de deixar roupa suja e fedorenta no banco de trás?!?! Socorroooooooooo....
E posso dizer... melhor atender o celular e ser a mamãe do que deixar ele tocando e a menina ficar sem saber quem era!!! :o)hihihihi...
beijinhos, paz e bem!!!

Surfista disse...

VULGO, gleides e afins só complicam nessa hora.
CARLA, fico feliz com seu retorno. Você é da casa.
PAULINHA, todo homem acha que o que não o incomoda também não incomoda os outros. O quimono fedorento foi desleixo. Sobre o celular, concordo em gênero número e grau.

Keep walking

foradacurva disse...

Eliane, de traços delicados e jeito manhoso, foi uma das pessoas mais guerreiras que conheci.

Lembro como se fosse hoje quando ela comentou de você. Os olhinhos brilharam recordando todas essas boas lembranças...

Surfista disse...

FORADACURVA, ou querida editora, Eliane foi uma estrela cadente na vida do cronista. Passou rapidinho, mas foi tão importante, tão sublime.

Du disse...

eh uma pena q tenha q ser assim, mas algumas coisas a gente soh aprende na dor mesmo.

Tenho ctz q vc nunca mais vai cometer a mesma "negligencia" com outra garota.

"...e tudo tem três lados, e a manhã semeará outros dados."

Jongleuse disse...

No way!
Cara com o celular desligado num encontro é péssimo sinal!
sinal de que ta devendo, que tem culpa no cartório.
Se quiser, deixa no vibra call, mas desligar, não!