terça-feira, 11 de setembro de 2007

Vem, lindinha!

Essa é uma história de vingança. E como toda boa história de revanche, ela começa muito tempo depois, tomando forma exatamente quando menos se espera...

Tudo que eu queria era um filme em reprise na TV. Acho que todos já tiveram esse desejo em uma tarde preguiçosa de sábado. Ainda mais depois de uma longa partida de futebol sob um sol senegalês. Para o quinto dos infernos com a Mega-Sena ou com a boquinha linda da Angelina Jolie. Eu só queria minha cama, ar-condicionado e um filme da "Sessão da Tarde" daqueles que passam toda semana. Não tem problema em dormir no meio ou perder a história. Sei que a maioria das pessoas preferiria um disco de jazz ou o novo álbum da Enya, mas música sempre me prende a atenção.

Já estava com a calça do pijama e o ar-condicionado mantinha a temperatura em agradáveis 18 graus. Só me faltava a historinha. A TV estava ligada, mas não tinha nenhum clássico passando. Isso poderia prejudicar meu soninho. Lembrei dos meus DVDs e escolhi "O Mágico de Oz". Quando puxei o filme na prateleira, um cartão caiu no chão. Eu o apanhei e tinha um nome e telefone.

Quem era Lígia?

Esse é um nome comum e o cartão não me deixava outras pistas.

Lígia, Lígia, Lígia... Lembrei!

Conheci a tal Lígia no reveillón em Ipanema. Nós conversamos por um bom tempo, mas não consegui nada além do cartão com o telefone. Esqueci de ligar e já fazia quase dois meses desde a virada do ano. Olhei para o pedacinho de papel na mão esquerda e o filme na mão direita. Lígia ou "O Mágico de Oz"?

Foi mal, Dorothy.

- Alô.

- Alô - voz de mulher.

- Lígia?

- Sou eu. Quem é?

Me identifiquei.

- Quem?

Péssimo começo.

- A gente se conheceu na festa de reveillón da Lucinha. Ficamos conversando um tempo e você me deu o seu telefone. Desculpa a demora em te ligar.

- Ah.

Foi um "ah" do tipo "então tá". Sem tom de alegria. Aprendi que o "ah" é o sinal se você está indo bem ou não. Quando o "ah" é longo e melodioso, seu contato foi uma surpresa bem-vinda. Quando é curto e seco, é ruim. Só falta ser seguido de um "e daí?"

- Fiz mal em ligar?

- Bom, não sei...

Danou-se!

- Pois é, encontrei o seu telefone e decidi telefonar. Você me passou uma impressão muito legal e queria continuar a conversa.

Fiz um elogio para amansar a fera.

- Obrigada.

Oba, progresso.

- Queria te rever. Talvez tomar um chopp. Abriu um bar muito charmoso no Leblon e...

- Nesse fim de semana não vai dar. Tenho compromissos marcados.

Ai, ai, ai.

Ela cortou a tática de mostrar conhecimento sobre os novos points da cidade.

- Talvez outro dia?

- Não sei.

- Lígia, você quer que eu ligue novamente?

- Melhor não.

Ippon!

- Bom, foi legal falar com você de novo. Tchau.

- Beijo pra você.

A mulher me enxota como um cão sarnento e depois me manda um beijo. Brincadeira, né?

- Outro pra você.

Sou um fraco. Devia ter sido frio e seco também. Beijo é o escambau!

Ela desligou primeiro.

Fiquei com telefone na mão e eu refletia sobre o ocorrido. O que tinha dado errado? Liguei de novo.

- Alô - ela atendeu.

- Lígia, sou eu de novo.

- Oi, o que foi dessa vez?

- Me tira uma dúvida.

- Qual?

- O que eu fiz de errado?

- Como assim, rapaz? - ela tomou um susto com a pergunta. Eu também tomaria. Imagina uma mulher tendo que dar explicações para um louco que conheceu no reveillón há quase dois meses. Eu não acreditava que eu estava fazendo isso.

- Queria saber em que ponto desandou a maionese. Tivemos um primeiro contato legal e eu senti que poderia ser promissor. Aí eu ligo e você me bota pra escanteio sem nenhuma cerimônia.

- Pois é, botei mesmo.

Cachorra! Não deveria concordar com isso.

- Então, o que fiz de errado? Eu aprendo rápido. Garanto que assim que você me contar, eu nunca mais repetirei o mesmo deslize.

- Será mesmo?

- Palavra de honra.

- Querido, você é engraçadinho e tal, mas tem um problema de tempo de ação.

- Tempo de ação?

- Sim. Se eu lhe dei o meu telefone é porque eu queria que você me ligasse, certo?

- Certo. Eu liguei.

- Ligou quase no reveillón seguinte, bonitinho. Tá certo que um certo tempinho faz parte do jogo. Deixar a menina naquela aflição "oh! Será que ele irá me ligar?" às vezes funciona, mas só quando não dura muito.

- Demorei muito, né?

- Uma eternidade. Até esqueci de você. Vou lhe contar um segredo: esse joguinho de deixar esperando é uma babaquice. Um cara me conquistou uma vez quando me chamou para sair e me ligou na véspera. Ele disse "segundo o protocolo, eu deveria lhe ligar só amanhã, mas eu queria muito ouvir a sua voz e liguei hoje, Não tenho nada para falar. Desculpa". Reparou que fofinho? Quase chamei o moço para o meu apartamento naquele exato momento.

Eu ouvia tudo atentamente.

- Queridinho, você deve ligar quando sentir aquela vontade incontrolável. Nada disso de deixar esperando só para fazer charminho. Você deve estar acostumado com mulheres mais bobinhas e entrou pelo cano dessa vez.

Entrei mesmo.

- O tempo jogou contra.

- Você acha mesmo que foi só o tempo?

- Teve mais?

- Você chegou muito cheio de si. Se identificou apenas pelo nome e nada mais. Deveria ter sido mais humilde e dado as referências. Nos vimos há um tempão e você se acha inesquecível?

Eu estava tomando uma escovada da Lígia, mas estava gostando.

- Entendi.

- E evita usar aqueles papos clichês. Aquele elogio de início, depois o convite para o bar da moda, a conversa mole e por aí vai.

- Lígia, eu nem lembrava de você. Encontrei o seu cartão engatado no DVD de "O Mágico de Oz". Estava sem nada para fazer e decidi ligar para arriscar.

- Bem mais sincero agora. Ponto para você.

- Você me deu um baile.

- Só te dei uns toques importantes.

- Quer sair comigo?

- Não.

- Por que?

- Estou saindo com o cara que quebrou as regras do jogo. Eu já falei sobre ele.

Filho da...

- Tudo bem. Obrigado pelos conselhos.

- De nada.

- Beijo e boa sorte.

- Obrigada. O mesmo para você, bonitinho.

Desliguei primeiro.

Dorothy, onde estávamos mesmo?




***


QUAL A MORAL DA HISTÓRIA,
HE-MAN?
Amiguinho, se você me fizer passar uma vergonha dessa, eu te excluo do meu fã-clube. Essa foi um dos approachs mais desprovidos de noção da história da raça humana. Quando o garotão entra por cima, sempre surgirá uma mulher que o porá para baixo. Isso é certo. Faça o favor de não confundir confiança com arrogância. Quando você deixou passar uma vida de intervalo entre um contato e outro, no mínimo, seja delicado na retomada. Entrar de sola como se você fosse a última coca-cola do deserto não vai te levar a lugar nenhum. Vai pelas beiradas e exercite o seu feeling. Sinta o terreno e vá à luta. Amiguinho, quando o papai e a mamãe dizem não, é não, mesmo. Seja obediente! Até a próxima.

15 comentários:

b_b_rj disse...

"...você deve ligar quando sentir aquela vontade incontrolável. Nada disso de deixar esperando só para fazer charminho..." E então...prestou atenção? Huahauhauahahaa...bjs.

Vulgo Dudu disse...

Dougra, Notei algumas passagens estranhas nesse texto. Que papo é esse de Enya? Eu hein... E mais: 18 graus? Isso é um quarto ou um frigorífico?

Esse negócio do "ah" é bem interessante!

Abs!

Bibi disse...

Muito bom este post. A moça foi 100% explicativa. Ligar dois meses depois é uó. Bem se percebe que você esqueceu da menina e ligou quando não tinha nada melhor para fazer... Mas fez bem em arriscar. Nunca se sabe, não é??

beijos e boa noite!

Surfista disse...

B_B, a lição se estende a todos.
VULGO, Enya dá sono e 18º é uma temperatura agradável em um dia de calor insuportável.
BIBI, quem não arrisca não petisca.

O Noivo disse...

Uma pergunta: Como é que o cartão foi parar ao lado do DVD do Mágico de Oz?

Mágico de Oz? Sábado a tarde?

Saca-rolha!

Surfista disse...

NOIVO, se eu soubesse como foi parar lá, eu não teria esperado tanto para ligar para a menina. E "O Mágico de Oz", sim! Eu tenho e me amarro!

Du disse...

CARACA!!!

cara d platina vc, hein? ligar 2 meses depois e ainda aprender liçao com a moça... mas vlw, vlw... digno d aplauso!

gostei do blog

abrç

Surfista disse...

DU, obrigado! Entre mortos e feridos, salvou-se a lição! Volte sempre.

Carla Amorim disse...

Douglas... diga que essa história é 100% ficção, diga... Você não fez isso, não acredito! Kkkkkk.
Muito hilário, muito, muito.

Mágico de Oz? Eu amo!! A musiquinha me 'mociona' que só! :-)

Bjs.

Surfista disse...

CARLA, minhas histórias costumam ser 85% realidade e 15% licença poética. Algumas vezes, são mais verídicas. Essa é uma crônica cuja decisão fica ao seu critério! ;)

Beijos!

Anônimo disse...

E o Willie Wonka - Versão original?

O Noivo

carlamorim disse...

Ok Doug! Pensando bem, vc merece 'licença poética' até na vida real! rsss Bjs.
:-)

Jongleuse disse...

Gostei dessa tal de Ligia...

Nunca vou me esquecer de uma vez em que um carinha virou pra mim dizendo que não rolava mais de ficarmos juntos por que eu era muito certa do que eu queria, que eu não cumpria os protocolos sociais...

É cada uma que a gente tem que ouvir...

Drika disse...

e será mesmo que vc aprendeu alguma coisa?
=)
beijo.

Jongleuse disse...

Se eu tivesse um pouco menos de "amarras" eu faria a mesma coisa...